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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Reparte o Pão da Vida...dá com o Coração!


O que se segue é um relato verídico sobre um homem chamado Vítor.
Depois de meses sem encontrar trabalho, viu-se forçado a recorrer à mendicidade para sobreviver, o que o entristecia e envergonhava muito.
Numa tarde fria de inverno, encontrava-se nas imediações de um restaurante de luxo, quando viu chegar um casal.
Vítor pediu-lhe algumas moedas para poder comprar algo para comer.
- Não tenho trocos - foi a resposta seca.
A mulher, ouvindo a resposta do marido, perguntou:
- Que queria o pobre do homem?
- Dinheiro para comer. Disse que tinha fome - respondeu o marido encolhendo os ombros.
- Lourenço, não podemos entrar e comer comida farta de que não necessitamos e deixar um homem faminto aqui fora!
- Hoje em dia há um mendigo em cada esquina! Aposto que ele quer é dinheiro para beber!
- Mas eu tenho uns trocos comigo. Vou dar-lhe alguma coisa!
Mesmo de costas para eles, Vítor ouviu tudo o que diziam. Envergonhado, queria afastar-se e fugir dali, mas a voz amável da mulher reteve-o:
- Aqui tem qualquer coisa. Consiga algo de comer, e, ainda que a situação esteja difícil, não perca a esperança: há-de haver, nalgum lugar um trabalho para si. Faço votos para que o encontre.
- Muito obrigado, minha senhora. A senhora ajuda-me a recobrar o ânimo! Nunca esquecerei a sua gentileza.
- Você vai comer o Pão de Cristo! Partilhe-o! - acrescentou ela com um largo sorriso, dirigido mais ao marido do que ao mendigo.
Vítor sentiu como se uma descarga eléctrica lhe percorresse o corpo.
Foi a um lugar barato para comer um pouco. Gastou só metade do que tinha recebido e resolveu guardar o restante para o dia seguinte: comeria do 'Pão de Cristo' dois dias.
Mas uma vez mais sentiu aquela descarga eléctrica a percorrer-lhe o corpo: O PÃO DE CRISTO!
"Um momento! - pensou - Eu não posso guardar o 'Pão de Cristo' só para mim".
Parecia-lhe como que escutar o eco de um hino antigo que tinha aprendido na catequese.
Naquele momento, passava um velhote ao seu lado.
- Quem sabe, se este pobre homem não terá fome também - pensou - Tenho de partilhar o 'Pão de Cristo'.
- Ouça - chamou Vítor - Quer entrar e comer uma comidinha quentinha?
O velho voltou-se e encarou-o de olhar incrédulo.
- Está a falar sério, amigo? O homem não acreditava em tanta sorte, até estar sentado à mesa coberta com uma toalha e com um belo prato de comida quente à frente.
Durante a refeição, Vítor reparou que o homem envolveu um pedaço de pão num guardanapo de papel.
- Está a guardar um pouco para amanhã? - Perguntou.
- Não, não. É conheço um miúdo da rua e que tem passado mal ultimamente. Estava a chorar com fome, quando o deixei. Vou levar-lhe este pão.
- O Pão de Cristo! - Recordou novamente as palavras da senhora e teve a estranha sensação de que havia um terceiro convidado sentado naquela mesa.
Ao longe, os sinos da igreja pareciam entoar o velho hino que antes lhe tinha ressoado na cabeça.
Os dois homens foram levar o pão ao menino faminto que o começou a devorar com alegria. Subitamente, deteve-se e chamou um cãozinho, um cachorrinho pequeno e assustado.
- Toma lá. Metade é para ti - disse o menino. O Pão de Cristo também chegará para ti.
O catraio tinha mudado de semblante. Pôs-se de pé e começou a correr com alegria.
- Até logo! - disse Vítor ao velho - Nalgum lugar encontrará emprego. Não desespere! Sabe? - sussurrou - Isto que comemos é o Pão de Cristo. Foi uma senhora que me disse quando me deu aquelas moedas para o comprar. O futuro só nos poderá trazer algo de muito bom!
Enquanto se afastava, Vitor reparou melhor no cachorrinho, que lhe farejava as pernas. Abaixou-se para o acariciar, quando descobriu que ele tinha uma coleira onde estava gravado o nome e o endereço do dono.
Vítor pegou nele e caminhou um bom bocado até à casa dos donos do cão, e bateu à porta.
Ao ver que o seu cãozinho tinha sido encontrado, o homem primeiro ficou todo contente; depois, tornou-se mais sério, pensando que se calhar o teriam roubado; mas, encarando a cara séria de Vítor e vendo no seu rosto um ar de dignidade, disse então:
- Pus um anúncio no jornal oferecendo uma recompensa a quem encontrasse o cão. Tome!
Vítor olhou o dinheiro, meio espantado, e disse:
- Não posso aceitar. Eu apenas queria fazer bem ao animal.
- Pegue-lhe! Para mim, o que você fez vale muito mais que isto! E olhe, se precisar de emprego, vá amanhã ao meu escritório. Faz-me falta, ao pé de mim, uma pessoa íntegra assim.
Vítor, ao voltar pela avenida, como que volta a ouvir aquele hino que recordava a sua infância e que lhe ressoava no espírito. Chamava-se 'REPARTE O PÃO DA VIDA'.

NÃO TE CANSES DE DAR, MAS NÃO DÊS SOBRAS,DÁ COM O CORAÇÃO, MESMO QUE DOA.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Castelo da Nossa Vida...


«O Castelo da Vida, da nossa Vida».
É assim:
Decorria o ano de 1970 quando um jovem (Alentejano, tinha que ser), de vinte e tais anos foi enviado à Escócia para receber formação na implantação de um projecto de produção novo em Portugal.

Num dos seus períodos de lazer este jovem, ávido de conhecer e longe de sonhar o muito que iria aprender, comprou uma espécie de guia dos Castelos das ilhas. Alguns tinham dias de visitas e outros horários mais estritos. Mas o que lhe pareceu mais atractivo era o que se apresentava como «A Visita da Tua Vida» (que acabou afinal por ser mesmo de verdade).

Nas fotografias, pelo menos parecia um Castelo nem mais nem menos espectacular que os outros, mas que era especialmente recomendado. Esplicava que, por razões que depois se viriam a compreender, as visitas não eram pagas antecipadamente, mas tinha de se fazer uma marcação, propondo um dia e uma hora, com antecedência.

Intrigado com este tipo de proposta, o jovem telefonou do hotel naquela mesma tarde e confirmou um horário para a visita. Em qualquer parte do Mundo acontece o mesmo; basta que se tenha uma marcação importante, com hora precisa e nessa necessidade de ser pontual, para que tudo se complique (para mais quando se tem de conduzir pela nossa esquerda). Esta não foi uma excepção, e o jovem chegou ao Castelo 10 minutos mais tarde do que a hora marcada (ele ainda não conhecia a famosa «pontualidade britânica»). Apresentou-se diante de um homem, já idoso, com saia de xadrez que o esperava e lhe deu as boas-vindas.

- Os outros já foram com o guia? - perguntou o jovem ao ver que estava sozinho.

- Os outros? - perguntou o homem. - Não. As visitas aqui são individuais e não temos guias.

Sem fazer qualquer menção ao horário, ele explicou ao jovem um pouco da história do castelo e sugeriu-lhe algumas coisas a que deveria prestar uma atenção especial. As pinturas nas paredes. As armaduras na mansarda. As máquinas de guerra do Salão Nobre, debaixo das escadas, as catacumbas e a sala de torturas na masmorra. Dito isto, deu ao jovem uma colher e pediu-lhe que a segurasse horizontalmente com a parte côncava virada para o tecto.

- Para que é isso? - perguntou o jovem.
- Nós não cobramos antecipadamente a visita. Para avaliar o custo do seu passeio, recorremos a este mecanismo: cada visitante leva uma colher como esta cheia até acima de areia fina. Cabem aqui exactamente 100 gramas. Depois de percorrer o Castelo, pesamos a areia que ficou na colher e cobramos uma Libra por cada grama que tenha perdido... É só uma maneira de avaliar o custo da limpeza - explicou.
- E se eu não perder uma grama?
- Ah, meu caro jovem, então a sua visita ao Castelo será gratuita.

Entre divertido e surpreendido com a proposta, o jovem viu como o seu anfitrião enchia de areia a colher e começou logo a sua viagem. Confiando no seu pulso, subiu as escadas muito devagar e com o olhar fixo na colher. Ao chegar lá acima, à sala das armaduras, preferiu não entrar porque lhe pareceu que o vento faria voar a areia e decidiu descer cuidadosamente. Ao passar junto ao salão que exibia as máquinas de guerra, debaixo das escadas, deu-se conta que para as ver com vagar era forçosamente necessário inclinar-se segurando-se ao parapeito. Não era perigoso para a sua integridade, mas o fazê-lo implicava a certeza de derramar algum do conteúdo da colher, por isso conformou-se em olhar para elas de longe. O mesmo se passou com a mais que inclinada escada que levava às masmorras. Pelo corredor de regresso ao ponto de partida, caminhou satisfeito em direcção ao homem com a saia escocesa, que o aguardava e esperou o ditame do homem.

- Assombroso, perdeu menos de meia grama - anunciou. - Felicito-o, tal como o senhor previu, esta visita saiu-lhe gratuita.
- Obrigado...
- Gostou da visita? - perguntou finalmente o recepcionista.

O jovem hesitou e por fim decidiu ser sincero:
- A verdade é que não muito. Estive tão ocupado a tentar não entornar a areia, que não tive oportunidade de olhar para o que o senhor me sugeriu.
- Mas...que disparate! Olhe, vou fazer uma excepção. Vou encher outra vez a colher, porque é norma, mas agora esqueça-se de quanto vai derramar. Faltam 12 minutos para que chegue o próximo visitante. Vá e regresse antes que ele chegue.

Sem perder tempo, o jovem pegou na colher e correu para a mansarda; ao chegar aí deu uma olhadela rápida ao que havia e desceu a correr para para as masmorras, enchendo as escadas de areia. Não se demorou quase nada, porque os minutos passavam e voou praticamente até à passagem debaixo das escadas, onde, ao inclinar-se para entrar, deixou cair a colher e derramou todo o seu conteúdo. Olhou para o relógio, tinham passado 11 minutos. Ficou outra vez sem ver as máquinas e correu em direcção ao homem da entrada, a quem entregou a colher...vazia.

- Bom, desta vez sem areia, mas não se preocupe, temos o acordo que fizemos. Que tal? Desfrutou da visita?
O jovem hesitou outra vez por uns momentos ...
- A verdade é que não - respondeu por fim.
- Estive tão preocupado em chegar antes do outro visitante tal como combinado, que perdi toda a areia, mas voltei a não desfrutar de nada.

O homem da saia, acendeu o cachimbo (se bem me lembro) e disse:
- Há os que percorrem o «Castelo da sua Vida» procurando o que não lhes custa nada, e não conseguem desfrutar dela. Há outros que estão tão apressados em chegar rapidamente que perdem tudo sem a desfrutar. Alguns aprendem esta lição e demoram o tempo que julgam necessário em cada percurso. Descobrem e apreciam cada canto, cada passo. Sabem que não será gratuito, mas entendem que os custos de viver...valem a pena!

Ou não valem? O que acham?

segunda-feira, 29 de março de 2010

sábado, 14 de novembro de 2009

À Sombra da Cruz


« Se não despes todas as tuas vestes,
não poderás receber a Luz...»


Um dia, um homem ao passar num caminho escuro e longe da aldeia em que morava, encontrou no chão a seus pés, um alforge de couro cheio de qualquer coisa que pesava muito. Olhou, tornou a olhar e como não visse ninguém, pegou no saco e escondeu-o debaixo do casaco.
Começou a andar precipitadamente, quase correndo, até que pudesse encontrar um local mais claro onde pudesse ver o que continha o alforge e satisfazer assim a sua curiosidade. Chagando perto de uma clareira, uma nuvem descobriu a lua e a sua luz inundou tudo como se fora dia. Havia perto um casebre e o homem receou que aparecesse alguém repentinamente e o surpreendesse com o saco nas mãos.
- Não, aqui não estou seguro. Vou andar mais algum tempo até encontrar um sítio absolutamente isolado. E continuou...
A sua ânsia aumentava, porque aquele peso que levava consigo, dava-lhe uma excitação que o fazia arquejar.
Mas os casebres sucediam-se e a lua maliciosa parecia escarnecer com o viandante, mostrando ao longo do caminho toda a sua claridade como se o quisesse iluminar. Já tinha andado uma boa hora, quando as casas se foram tornando mais raras até que, até cerca de mais de um quilómetro percorrido, não avistou mais nenhum sinal de vida. E era muito tarde já para que algum caminheiro retardatário se atrevesse por caminhos tão esconsos.
- Estou só e seguro, finalmente – disse. Mas a lua que traiçoeiramente se tinha escondido, de novo deixou o homem e tudo o que o rodeava na mais profunda escuridão.
- Sentar-me-ei nesta pedra até que a luz volte; entretanto desatarei o saco, para ver se pelo tacto conseguirei saber o que é. Talvez muito dinheiro, talvez jóias; talvez seja a minha fortuna,- disse.
Desatado o alforge, o homem verificou que pela forma e pelo tilintar, deviam ser moedas. De ouro? De prata? E já se via senhor de muitos criados a trabalhar para si e para os seus. Searas brilhando ao Sol e os celeiros cheinhos de loiras espigas.
- Que sorte tive, monologava ele. E como desconheço quem perdeu tal riqueza, tornar-se-á legitimamente minha.
Mas a lua, a temível lua, apareceu outra vez iluminando o caminho, as sebes, as pedras e todo o local. Avidamente o novo homem rico olhou em roda e assustado viu à sua frente uma sombra enorme em forma de cruz. Levantou-se e verificou que ali se erguia um pequeno cruzeiro sobre um pedestal de pedra e em cujo degrau estivera sentado.
Na cruz viu um sinal, e persignando-se, ajoelhou no chão e olhou para o alto com o remorso no coração. Dolorosamente a sua voz, num sentimento de cruel amargura, elevou-se até à cabeça coroada de espinhos:
- Pequei meu Deus, pequei com o coração cheio de cobiça por um tesouro que não me pertencia. Fui desonesto, Senhor, fui um ladrão. A tua sombra protectora, porém, transformou-me e fez-me voltar a sentir o que abafei com o peso do ouro. Julguei-me só e por momentos esqueci que nunca ninguém está sozinho...

Seria bom lembrar-mo-nos sempre deste homem que quis desviar-se da luz, tendo sempre presente que a sombra protectora que vem do Alto e é reflectida pela voz da consciência, é um poder mais forte que todas as forças da Natureza e indica sempre o caminho seguro!


Luis – 2002-11-24

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os Três Amigos



No encadeamento da vida todos somos
devedores e credores.
Rectifica-te em primeiro lugar,
para que saibas
vir a calar-te ante os erros alheios...


Um homem tinha três amigos: o dinheiro, sua mulher e os seus actos.

Estando próximo da morte, mandou chamar os três amigos para lhes dar o seu último adeus. E, então, disse ao primeiro:
- Adeus, amigo, vou morrer.
O amigo respondeu-lhe:
- Quando estiveres morto, mandarei acender uma vela pelo descanso da tua alma.
Disse, depois, ao segundo amigo:
- Vou morrer, adeus.
E o amigo falou:
- Quando morreres acompanharei teu corpo ao cemitério.
Finalmente, chegou o terceiro:
- Vou morrer. Adeus.
E o terceiro amigo disse-lhe:
- Não digas adeus, porque estarei sempre contigo. Se viveres, viverei; e, se morreres, eu te acompanharei da mesma forma.

E, de facto, o homem morreu. O dinheiro, lhe acendeu uma vela; a sua mulher acompanhou o caixão até ao cemitério; as boas acções, que o acompanharam durante a vida toda, lhe abriram o caminho para a felicidade eterna.


Conto ou Realidade?

Luis – 2002-11-20

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Menino Feio



«Que belo é ser criança ... »

Era uma vez um menino que era destituído de qualquer traço de beleza física. Os seus olhos não tinham vida, eram tristes e baços. O seu cabelo sem graça era rebelde e sem brilho e o seu corpo franzino suportava uma cabeça desproporcionada. As suas pernas eram finas e os braços curtos. Para além disto o menino era triste também. As outras crianças olhavam-no com curiosidade e chamavam-lhe feio. Mas não eram só os pequeninos, os próprios adultos se divertiam com o seu aspecto. Inconscientes do mal que faziam, empurravam o menino a que chamavam feio para uma tristeza cada vez maior e onde não luzia uma ténue esperança. Este menino de que vos falo agora fora recolhido por caridade, e como a caridade se paga caro, o pobrezinho trabalhava para além das suas forças infantis. O pão que comia e a mão que lho dava, faziam-lhe esquecer constantemente a sua pouca idade. Caridade meus meninos, pode estar não na esmola que se dá mas no amor com que se dá. E a fome pode não ser mitigada com o alimento que se toma. Há outra espécie de fome, e mais intolerável, que aquela que reclama o alimento, e essa reside no coração. Deus vos afaste dela, meus queridos meninos, e que Ele proteja todos os inocentes, porque essa fome de que vos falo, ah, essa é terrível ! É a necessidade de amor e de ternura, é a ânsia duma dádiva fraternal de carinho, é o peso da solidão no meio de uma multidão.

Era desta fome que o menino sofria. Ele sentia a saudade de um beijo que nunca tivera e o desejo de uma ternura sem esperança. Nunca uma mão carinhosa lhe afagara o cabelo nem uns lábios doces lhe afloraram a face. E o menino, na calada da noite, imaginava que uma senhora linda e boa ali vinha e lhe sorria com ternura. Depois, cansado por um dia de trabalho, entrava no sono menos triste. E esperava sempre a noite com ansiedade, para, na solidão do seu cubículo, imaginar e sonhar. No dia seguinte, com os alvores da manhã, vinha a realidade, a vida, o trabalho, a troça, os olhares de dó, os risos abafados. E para ele, pequenino como vós, os dias eram sempre sem Sol, sem a esperança de um «amanhã» mais feliz.
Mas o menino dito feio, que era triste, mas também bom, nunca se zangava.
- «Coitados, pensava, eles não magoam por prazer, é só porque não sabem que as palavras também fazem doer ».

E que cicatrizes deixam por vezes, queridos amiguinhos ! São como marcas de fogo que nunca se apagam.

Um dia, o menino foi mandado a um lugar um pouco distante levar umas ordens do amo, a uns trabalhadores no campo. Era uma tarde de Primavera. Cheirava a urze e a alecrim. O céu muito azul lembrava o manto da Virgem da capelinha. O Sol dourava tudo e tornava mais verde as ervas dos campos e mais vivas as cores das flores. Um regato corria sussurrante lado a lado do caminho, por onde seguia o nosso menino que, livre e só, se sentia quase feliz. Saltitando nas suas débeis perninhas, ele sentia a brisa acariciar-lhe o cabelo e roçar-lhe a face. À sua frente, uma borboleta de asas coloridas esvoaçava em círculos pousando aqui e ali.
- Que linda – monologou ! E, sonhador, pôs-se a seguir com os olhos as suas evoluções. Como que atraída pelo murmúrio das águas, o insecto pousou numa pedra bem no meio da corrente. Fascinado pelas cores da borboleta irrequieta, o menino teve o impulso de a agarrar, mas, quando ia fazê-lo, uma outra mãozinha se lhe antecipou e delicadamente segurou-a entre os dedinhos cor de rosa. Do outro lado da margem estava um outro menino sorridente. Os olhares de ambos cruzaram-se e foi como se já se conhecessem.
Sorrindo sempre, o pequenino que agarrara a borboleta, estendeu-a ao outro, murmurando:
- Vem para aqui. Sei onde há outras borboletas mais lindas do que esta. Vem... E deu-lhe a mão num convite tentador. Brincaram felizes e despreocupados o resto da tarde. O menino feio esqueceu tudo: o recado, os homens que o esperavam, a tristeza que sempre o acompanhava e até a sua fealdade. O Sol estava muito baixo, mas os seus raios ainda incidiam sobre as águas do regatozinho. Cansado mas feliz, o menino sentou-se na relva perfumada e olhando o seu companheiro, admirou-lhe os caracóis louros, a face risonha, os olhos doces. Era um lindo, lindo menino ! Depois, reparou que à sua volta havia uma grande luz. Rodeava-lhe a cabeça loirinha, uma auréola brilhante como a dos santos ou a do Menino Jesus. De toda a figurinha gentil emanava uma claridade como se o menino loiro fosse todo feito de raios de Sol.
- ... Tu tens luz – balbuciou...
- E tu também – respondeu a criança, sorrindo docemente.
Surpreendido, o menino aproximou-se das águas frescas que continuavam a correr e, inclinando a cabeça para nelas se mirar, verificou que, qual espelho brilhante, elas reflectiam a imagem de um menino lindo como ainda não tinha visto outro.

Acabava aqui a história do menino triste e feio que se transformou em luz e beleza. Depois foi sempre feliz e alegre por um milagre misericordioso de Deus. Compreenderam ?


Luis – 2001-02-18

Pode Ter Sido Assim...



« E as trevas cobriram toda a Terra até à hora nona »
( Mateus, XXVII, 45-47 )


Ia alto o sol do meio-dia . Haviam chegado ao monte da Caveira, o Calvário, o Gólgata , em forma de um crânio . Estavam agora na colina da Imolação. Eram três os ladrões . Dois gostavam de surripiar coisas alheias. O Outro furtava almas de seu alheamento obtuso. Era Jesus.

O céu estava carregado, a terra, como em todos os arredores de Jerusalém, seca e sombria. Segundo certas narrações, desfaleceu-lhe o coração por um momento, uma nuvem ocultou-lhe a face de Seu Pai, teve uma agonia de desesperação mil vezes mais pungente do que todos os tormentos. Não viu mais do que a ingratidão dos homens, e arrependen-
do-se, talvez, de sofrer por uma raça vil, exclamou: « Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste ?».

Mas o seu instinto divino triunfou ainda. Ao passo que se extinguia a vida do corpo, tranquiliza-se a alma e voltava pouco a pouco à sua celeste origem. Recobrou o sentimento da sua missão, viu na sua morte a salvação do mundo, perdeu de vista o espectáculo hediondo que se desenrolava a seus pés, profundamente unido a seu Pai, começou sobre a cruz a vida divina que ia passar no coração da humanidade por séculos infinitos.

A atrocidade particular do suplício da cruz estava em se poder viver três ou quatro dias naquele horrível estado sob o escabelo da dor. A hemorragia das mãos suspendia-se depressa e não era mortal. A verdadeira causa da morte era a posição contra natural do corpo, de que provinha horrível perturbação na circulação, dores insuportáveis no coração e na cabeça, e enfim a rigidez dos membros. Os crucificados de compleição robusta não morriam senão de fome. A ideia mãe daquele cruel suplício não era matar directamente o condenado por lesões determinadas, mas expor o escravo,

cravado pelas mãos de que não soubera fazer uso, e deixá-lo apodrecer sobre o lenho.

A constituição delicada de Jesus livrou-O dessa lenta agonia. Tudo leva a crer que da ruptura instantânea de um vaso do coração, lhe resultou, ao cabo de três horas, a morte súbita. Alguns momentos antes de expirar tinha ainda a voz forte. De repente soltou um grito terrível, em que uns ouviram:«Meu Pai, entrego nas tuas mãos o meu espírito !» e que outros, mais preocupados com o cumprimento das profecias, traduziram por estas palavras : « Tudo está consumado !». Pendeu a cabeça sobre o peito e expirou.

Uma antiga lei judaica proibia que se deixasse um cadáver suspenso na cruz depois do pôr do Sol.
Se o corpo crucificado resistia, o carrasco olhava para o Sol a medi- lo e se este tombava apressado rumo ao fim de tarde, também se apressava a ultimar a morte do supliciado. Acresciam novos tormentos. Era o crurifragium, o quebramento das pernas...

Uma forte maceta de ferro era descarregada nas articulações, até por vezes nos peitos... para se cumprir a lei. E a morte surgia rápida e triunfal ! Assim, se Jesus, o Crucificado, não houvera expirado fulminantemente nas três horas, valendo por séculos, a maceta cumpridora teria funcionado para esmigalhar os ossos moribundos.

Mas Cristo era morto. Um soldado disciplinado para a lei do pôr do Sol, alça a lança e dando um grande golpe num dos lados, fura-lhe a arca do peito imóvel para se certificar...

Sim, estava morto !

Aquele Jesus anónimo não transgredira o código e não lhe dera tantos trabalhos como outro corpos na agonia...

E pousou a lança enquanto com pasmo via que da ferida saía... sangue e água !



Luis - 2000-10-25

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O Mendigo Cego e o Mendigo Aleijado


Eram dois mendigos, um cego e o outro aleijado. Ambos viviam na floresta, fora da aldeia. Claro que eram rivais, eram inimigos –mendigar é um negócio.
Mas um dia houve um incêndio na floresta. O aleijado não tinha como escapar, porque não podia deslocar-se sozinho. Tinha olhos para ver por onde poderia escapar ao fogo, mas de que é que isso lhe serviria se não tinha pernas ?
O homem cego tinha pernas, conseguia mover-se rapidamente e escapar do fogo, mas como é que podia encontrar os lugares onde o fogo ainda não tinha chegado?
Ambos iriam morrer na floresta, queimados vivos. A emergência era tal que esqueceram a rivalidade. Livraram-se imediatamente do seu antagonismo – essa seria a única maneira de poderem vir a sobreviver.
O homem cego levantou o aleijado sobre os seus ombros e juntos encontraram o caminho para escaparem do fogo. Um estava a ver e o outro estava a deslocar-se, seguindo as indicações daquele que via.

Tem de acontecer consigo algo semelhante – mas, claro, na ordem inversa. A cabeça tem os olhos, o coração tem a coragem de se envolver em tudo. Você terá de fazer uma síntese entre os dois. E a síntese, é importante salientar – deve ser o coração a continuar a ser o senhor e a cabeça tornar-se o criado.
Como criado, tem ali um bem muito precioso –a sua razão.

Um homem consciente usa a cabeça como criado e o coração como senhor.

O coração tem todas as qualidades femininas: amor, beleza, graça.

A cabeça é bárbara.

Luis - 2004-10-18

domingo, 20 de setembro de 2009

Gratidão de Um Pássaro


Cantarei para sempre o amor de Javé,
anunciarei de geração em geração
a tua fidelidade

Salmo 89, Vers. 2


O quinteiro da Chaniça Nova (Baixo Alentejo), Sr. Manuel Pedro, ouviu que, das bandas do tanque da quinta, vinha o piar angustioso de um passarito, a pedir socorro. Aproximou-se rapidamente. Um pequeno picanço revolvia-se na água e o bater convulso das suas asas, mais o aproximava da morte. O Sr. Manuel Pedro deitou-lhe as mãos e salvou-o.
A avezita, ainda atordoada, espanejou, alguns momentos, ao sol quente, pipilou uns trilos de alegria e, levantando voo, foi à sua vida...

O Sr. Manuel Pedro esqueceu o caso. Mas o pássaro é que não!...

Passado algum tempo estava o quinteiro entregue à sua faina de cavar o meloal, surgiu o picanço, a saltitar-lhe em volta, pousando-lhe ora num braço ora no outro e na cabeça, e procurando-lhe as mãos, como se quisesse beijá-las. E nunca mais deixou o seu salvador.
Todos os dias, o dia inteiro, anda ali perto. De vez em quando, engole, nas mãos do seu benfeitor, um gafanhotozito ou debica alguns bagos de cereal. Entra em casa, como se pertencesse à família, percorre os aposentos, saúda quem encontra no caminho, vai passear e depois volta...

Mais curioso ainda, é que os irmãos do picanço não vêem com bons olhos tais manifestações de amizade, e procuram afastá-lo, perseguindo-o à bicada. Levam-no para longe.

De nada serve, porém, a intransigência dos da sua espécie, porque o passarito, mal se liberta da perseguição, corre para casa daquele que o salvou da morte!...



(De um fragmento de Jornal antigo)

Contos

Luis – 2002-11-26

A Cruz Preferida


Uma antiga lenda alemã fala de um homem que jornadeava pela vida ao peso de enorme cruz de ferro. Uma noite orou fervorosamente para que a sua cruz de ferro fosse substituída por uma de rosas. Estava certo de que seria muito mais agradável levar uma cruz de rosas do que a pesada cruz de ferro.
Ao acordar, na manhã seguinte, encontrou presa aos ombros uma cruz de rosas, e assim reiniciou a sua jornada com grande alívio. Quão mais agradável era a fragrância das rosas do que o torturante peso do ferro ! Mas, em breve, reconheceu que com as rosas que levava iam também alguns espinhos; e antes de ter caminhado muito, estes começaram a ferir-lhe desapiedadamente a carne.
Ainda não descera a noite e já o sangue lhe corria por todo o corpo, onde quer que lhe tivessem penetrado os espinhos. Incapaz de prosseguir com seu cruel fardo, orou outra vez:

«Ó Senhor, vejo que não posso carregar uma cruz de rosas. É pior do que a cruz de ferro; mas concede, em tua infinita bondade, que me seja dada uma cruz de ouro para carregar. Estou certo que a poderei levar com facilidade.»
Algumas horas depois, ao despertar, verificou que a sua oração havia sido, novamente, atendida, e com desembaraço pôs-se a caminho, levando a preciosa cruz a brilhar sob os raios do Sol.
Mas não havia andado muito, quando foi atacado pelos ladrões que o assaltaram e o espancaram. Tiraram-lhe a cruz de ouro, deixando-o quase morto à beira da estrada.
Quando, depois de muitas horas, recuperou os sentidos, proferiu uma angustiada oração:
« Misericórdia Pai, dai-me de novo a minha cruz de ferro ! Agora compreendo que esta é a única que posso carregar !»


Assim se dá na vida. Não nos conformamos com a nossa sorte e julgamos sempre que, para os outros, a vida é leve, suave e sem contrariedades. Puro engano !


A cruz de rosas está repleta de espinhos; a cruz de oiro atrai a cobiça dos invejosos e a perfídia dos maus. Se te negares a uma cruz, acharás certamente outra e, mais pesada.

Toda a vida de Cristo foi cruz e martírio; e tu queres que a tua seja descanso e alegria ?



Falripas da Minha Catequese – Volume 1

Luis – 2001-01-16

A Ponte dos Mentirosos



- Alguns não ouvem – não desejam ouvir – senão as
palavras que têm na cabeça. –

Josemaria Escrivá

A criança não é uma miniatura... Não ! É uma pessoa, como tal perfeita, a totalizar na sua humanidade pequena tudo o que pertence ao homem, mesmo a inteligência que se conhece em potência e em saídas raras e que, com o tempo se desenvolve até ao pleno funcionamento. Uma consequência derivante do instinto de defesa da criança é a mentira. Qual de vós é mentiroso ? Não basta os pais corrigirem os filhos mentirosos; seria bom dar-lhes uma lição frisante a esse respeito, como aconteceu no caso interessante que de seguida vos vou contar:

Era uma vez... um menino chamado Luis.
Luis é mentiroso. Feio defeito ! Como conseguirá o pai fazê-lo reconhecer que mentiu flagrantemente, primeiro passo para o corrigir ?
Um dia o Luis diz:
- Ó pai, sempre há cães que são enormes ! Eu ontem vi um cão que era do tamanho de um burro grande...
- Tens a certeza disso, Luis ?- Olha, eu vou à cidade. Queres vir?
Foram. A certa altura, o pai apontou ao filho uma ponte que se via ao longe.
- Luis, vês aquela ponte ? Quem me diz a mim que não é aquela a ponte do alçapão dos mentirosos ?!
- Que é isso
pai ?
- É uma ponte que, quando lá passa algum mentiroso, abre-se, debaixo dele um alçapão e cai ao rio...
O rapaz fica impressionado a matutar...
- Sabe, pai, o cão que eu vi ontem era do tamanho de um burro pequeno...
Deram mais uns passos: o rapaz tremia à aproximação da ponte.
-Olhe, pai,o tal cão não era como um burro, era só um cão grande.
Já chegaram à entrada da ponte: o rapaz pára, hesita...
- Vou dizer-lhe tudo, pai: eu ontem não vi cão nenhum especial...
- Está bem meu filho, mas já viste como é feio mentir ? Não tornes a mentir nunca. Os mentirosos, ainda que não caiam desta ponte, arriscam-se a cair da ponte que nos deve ligar ao Céu.





Falripas da Minha Catequese – Volume 1

Luis – 2001-04-12

Companheiros...





Realidade ? Sonho ?
Não sei. Jamais atino.
Caprichos do destino...
Quanta verdade eu ponho
naquilo que imagino !?...


Todos os alentejanos sabem que o Pego da Matinha é uma espécie de Judas iscariote de face lisa e amável, que vende e atraiçoa o primeiro. Lençol de águas paradas, bordado de folhas verdes de trevo, fica a dois passos do povo, entalado na mata de eucaliptos, à ilharga do córrego que desce das bandas de Espanha. Ávido e apressado, engole tudo que tenha a imprudência de lhe tocar os bordos – seja pedra que venha a resvalar e a cair, cerro abaixo, seja passo de homem ou bicho mal avisados.
Por isso, quando os filhos saem para a estrada em carreira, a sacola de pano com os livros da escola atirada sobre o ombro, o calcanhar, célere,
a bater o rabo dos calções, as mães vêm à soleira da porta esganiçar a voz num último aviso: « E não passes ao Pego da Matinha. Anda-me de largo, ouvis-te ? »
Contam-se coisas... Do almocreve bêbado que de regresso da feira de Beja lá se foi atascar, levando o burro manso bem atado ao pulso pela arreata; da moça da herdade, neta do porqueiro, que estava à espera dum filho sem pai e lá foi achar no buraco do pego esquecimento para a sua vergonha.
As mulheres benzem-se quando têm de passar-lhe perto, os homens descobrem as cabeças. Mas os moços... a esses parece que os atrai ali voz de sereia, chamando-os das profundezas turvas e limosas. Que talvez seja o próprio aviso rabugento a espicaçar-lhe o desejo de afirmarem uma
independência de pássaro solto no ar : « Não passes ao Pego da Matinha, entendido ? »
A verdade, verdade – é que o pego, largo e espelhado como um rio de águas paradas, é um coalho de rãs, peixes cabeçudos e até de enguias, que lhe trespassam o dorso de súbitos, ziguezagueantes arrepios. E, no Verão, quando o sol cai a pino sobre o mundo esbraseado, fazendo estalar a casca dura das árvores, e coze o coração das próprias aves que tombam do céu de asas retesas e bico entreaberto, o sítio, fechado na cerca rumorosa do eucaliptal, torna-se abençoado túnel de sombra e de frescura.

Porque a tarde era das tais, com um sol de lume vivo a arder no céu, impiedoso, o João e o Manuel tinham de comum acordo resolvido fazer feriado e não pôr os pés na escola. O corpo, alagado em suor, pedia-lhes descanso e fresquidão.
- E se fossemos ao Pego da Matinha ? – lembrou o Manuel – Batíamos lá uma rica sesta. Íamos depois à caça das rãs...
As boas ideias são tão raras que há que as agarrar em ambas as mãos como pássaros fugidios. Foi o que fez o João, pondo-se logo a trotar ao lado do companheiro, estrada fora. Encharcado de sol, o campo abria-se-lhes pela frente, estático e abrasado. O trigo não vira ainda gume de foice e as espigas, pejadas de grão, grossas e cor de ouro, vergavam para o solo as hastes humilhadas. Vasta arca de pão, a planície ali estava, generosa e aberta, à espera de quem quisesse colher-lhe a fartura.
Em quatro passadas, viram-se a pisar as terras secas, esboroadas do ferragial... Daí a alcançarem a mata de eucaliptos, era um salto de coelho. Ainda que o vento descansasse, a viola no saco e o rabo assentado no chão, fosse para as bandas do povo, da charneca ou do montado, ali, murmurava quase sempre uma brisa muito fina, sopro de folhagem ou bater de asas, quem sabe se a respiração presa do próprio rio.
Já de longe, o Manuel atirou pelos ares a sacola de livros que foi embater no tronco de uma árvore com um baque surdo de pinha madura a escachar-se no chão.
- Vamos às rãs ? – propôs.
- E a sesta ? – perguntou o João, afogueado, com grossas gotas de suor a escorrerem-lhe pelo rosto trigueiro.
- Tem tempo!
Descalçaram as botas e as meias listradas e foram, cautelosamente, pisar as margens fofas, avivadas de verdura, do charco adormecido. Uma frescura perfumada de loendro, colou-se-lhes às pernas espalhando-se depois por todo o corpo suado. Pusera-se logo à cata das rãs. Contornaram o pego, silenciosos, na ponta dos pés nus e aproximaram-se da extremidade do córrego tecido de juncos e mentastros onde apontavam, verdoengas e achatadas, como que adormecidas, as cabeças das rãs. Era preciso muita manha, que os estafermos pareciam ter olhos e ouvidos abertos por todo o corpo – mal uma pessoa dava um passo e ia mergulhar a mão na poça, aí voava uma para logo desaparecer, adiante, na fundura do charco. À superfície, a água ficava por momentos a abrir pequenos círculos que eram outros tantos sorrisos silenciosos e trocistas naquela face lisa. Sempre dava uma destas raivas !

Apenas pressentiam, de facto, a lenta aproximação, como se respirassem na aragem da tarde o cheiro excitante do perigo, começavam elas a mover-se e a altear as cabeças onde os olhos apontavam estoirados e fixos.

E ainda mal os rapazes, curvados pelos rins, a deslizarem sem ruído, estendiam o braço, já elas, avisadas pelo demo ou pelas bruxas, formavam o salto, umas atrás das outras, das margens para o lago: Chape ! Chape ! Pareciam carneiros, de inchadas. Mas levezinhas e ágeis, que ninguém diria, subiam ao ar, espalmadas, de pernas abertas, como se lhes tivesse soltado uma mola sob a barriga.
Estupores ! – exclamou Manuel que se pôs a arremessar para a água, raivoso, quantas pedras encontrou debaixo dos pés.
- É deixá-las. Vou-me mas é à sesta – disse o outro.
O corpo, entorpecido de calor, exigia-lhe descanso. Mas Manuel, magro e nervoso, com um focinho inquieto de bicho-furão, contrapôs logo, já desinteressado da caçada:
- Qual sesta ! Tomamos primeiro banho – dormimos depois. Que dizes ?
Já taciturno no modo e tardo na fala, não sentia João correr-lhe o sangue nas veias com o ímpeto imprudente de Manuel. E lembrou:
- Dizem que é perigoso.
- Histórias da carochinha para contar à lareira. Anda embora !
Desapertaram os cintos, tiraram as roupas e entraram nas águas escuras do pego.
Sentiram logo o chão de lodo aluir, silenciosamente, sob os pés que procuravam em vão a firmeza de um apoio. Ao mesmo tempo, toda aquela aparente tranquilidade fendia e estilhaçava: em voos precipitados, aflorando à superfície quebrada, insectos esquisitos, de longas pernas, vinham embater-lhes no corpo; um rato de água emergiu a cabeçorra escura e viva para logo mergulhar assustado. Passou depois, ziguezagueando, o vulto delgado, de uma cobra. Borbulhas de ar vinham a espaços do fundo, rebentavam ao de cima, formadas por lábios misteriosos, de afogados talvez, presos nas profundezas do lodo.
João parou, indeciso, com a água pelo joelho, a pele arrepiada e os sentidos alertados. O pego metia-lhe medo.
Manuel, porém, era feito de outra massa, levedava de rompante, com uma força selvagem, que o impelia cegamente para os espaços abertos sobre qualquer abismo que, imprudente, se recusava depois a medir. Descobrira que tinha asas e queria experimentar-lhes o poder, fosse qual fosse a largueza do horizonte que pretendia conquistar.
De longe, palpou a tibieza do amigo e lançou-lhe a pedrada do riso escarninho:
- Tens medo de molhar o cu, João ?
E, sem esperar resposta, voltou-lhe as costas e fez-se ao largo.
Mas o Pego da Matinha não gosta que lhe quebrem a paz: tem os seus segredos e guarda-os bem guardados nas profundezas soturnas...

A quem se afoita a sondar-lhe os mistérios abre-lhe os braços traiçoeiros, enleia-o suavemente até o puxar de vez fechando-o nas grades naturais de juncos e folhas apodrecidas que lhe forram as paredes.
Quando o Manuel, tarde demais, sentiu que o pego o tinha prisioneiro, gritou pelo João. Foi um grito estarrecido, a vara de surpresa a tranquilidade da tarde.
Pregado às margens do charco, o sangue coalhado nas veias, João era uma estátua de pedra. Quis gritar-lhe que sim, que esperasse, ia acudir-lhe de um salto – mas a garganta cerrou-se-lhe, o medo tolheu-o e, de vontade quebrada, ficou-se a ver o companheiro esbracejar, rouquejando não entendia que angustiado apelo. Por fim apenas ficou de fora um braço que se agitava, que continuava a chamar, que se imobilizou de súbito para acabar por desaparecer também.
Muito tempo depois de tudo consumado, ainda ele ali estava de pé, imóvel, e como que alheado – nuzinho em pelo e todo transido apesar do bafo quente da tarde.
O caminho de regresso, depois, pareceu-lhe longo e estirado, traçado sobre o gume de pedras ou línguas de fogo. E sempre aquele braço fora do lençol escuro das águas, em frente dos olhos, a pedir-lhe socorro, a acenar. Afigurava-se-lhe que, houvesse ele vencido o medo, houvesse ele acorrido como lhe imploravam e o pego não teria levado a melhor. Comprimia os punhos cerrados nos bolsos dos calções, fincava as unhas raivosamente nas palmas das mãos:



« Se não tivesse tido medo... Se não tivesse tido medo...» repetia-lhe em torvelinho o pensamento.
Quando entrou em casa, a mãe não lhe estranhou o silêncio nem a cara fechada. Viu-o vaguear do quarto para a cozinha e da cozinha para o pátio, cozido com a própria sombra – mas não fez caso. De súbito, porém, ei-lo que dispara direito à loja que servia de arrecadação. Saiu de lá com o baraço de corda que usavam para atar a cabra ao tronco da oliveira, atirado ao ombro e apontou outra vez à estrada. A mãe ainda veio à soleira da porta, mais surpreendida do que zangada:
- Ó João !
Mas já o filho ia longe, o velhaco, sapateando o asfalto numa pressa desenfreada.

Se lhe tivessem crescido asas nos ombros, não voaria com tanta rapidez até pousar sem alento, alagado em suor, nas bordas traiçoeiras do charco. O que contava é que estava de regresso, não podia faltar à voz que continuava a chamar por ele, insistentemente – podia lá ! Vencera o receio, deitara-lhe as unhas ao corpo sinuoso, de cobra, e que o enlaçara todo ainda há pouco, a ponto de lhe atar os movimentos. Mas aí estava de volta, aí estava para acudir ao Manuel.

E, sem mesmo descalçar as botas, todo vestido ainda, entrou afoito, de corpo inteiro, na fundura do charco. Tinha ligado ao pulso, com um nó firme, a extremidade da corda. Na outra ponta atara o peso de uma pedra.
- Eh ! Manuel ! – chamou.
« Manueeeel... » - respondeu-lhe o eco, a fazer ricochete, a saltar como um seixo arremessado sobre a superfície quieta das águas.
Assustado, um pássaro de plumagem escura saiu atarantadamente de um novelo de moitas, ganhou forças nas asas e esvoaçou sobre o pego como uma sombra de mau agouro.
- Eh ! Manuel ! – tornou ele a chamar, mais alto, já com a água para cima da cintura.
Calculou a distância a que o braço continuava a chamar fora daquela mortalha de águas paradas e arremessou a corda pelo ar, com força.

Do alto do caminho que descia estreitando em funil apertado entre a mata de eucaliptos, um homem de regresso a casa, terminada a faina do dia, deparou, intrigado, com as estranhas andanças. Tinha já pelos brancos nas barbas, que lhe testemunhavam largos anos de duras experiências, agarrado como um boi pacienta à canga pesada da terra. Sabia coisas – umas de ver com os próprios olhos desencantados que a vida lhe abrira, outras de ouvir contar aos mais velhos do que ele. Por isso não ignorava que o Pego da Matinha era uma cama de limos onde quem quer que nela se deitasse dificilmente de lá sairia. Pôs as mãos em concha e lançou o aviso:
- Eh ! Volta para trás, moço !
De nada serviu. João tinha os ouvidos e os olhos fechados para todos os sinais que lhe viessem do mundo. Via apenas à sua frente, obsessionantemente, o aceno angustioso a clamar auxílio. E foi avançando sempre, estendendo a corda, chegando-lhe o tardio socorro.
O homem deitou então a correr pelo carreiro abaixo. As pedras soltas sob as cardas das botas rolavam-lhe à frente, embaraçavam-lhe o passo, faziam-no tropeçar agora e logo. Se ainda chegasse a tempo ! Se pudesse ainda deitar o garfo das unhas àquele doido varrido ! Mas já um brado de angústia rasgava os ares, ferindo-lhe os sentidos:
- Manuel !
Correu mais depressa, caiu de joelhos, levantou-se e venceu afinal os últimos metros que o separavam do córrego.
Lá em baixo, porém, apanhou-o logo um grande e gélido silêncio. Tão grande tranquilidade era de estarrecer: - nem voo de asa ou sussurro de folha. Tudo quieto e suspenso como se o espanto ou o medo houvessem tolhido, ali, e nessa hora extrema, a própria Natureza.

***********************

Sereno, o Pego da Matinha espelhava o céu já tinto do sangue de um sol moribundo. Face lisa e amável de Judas iscariote.

E de súbito, das poças verdes, entretecidas de juncos e mentastros, rompeu um coro profundo e gutural : eram as rãs , soturnas, a entoar livremente o seu cante... parecendo soar:

Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a razão mesmo vencida,
não deixa de ser razão.


Que importa perder a vida
ainda que em tenra idade,
quando a amizade é sentida
e mais forte que a saudade!...





Falripas do Destino – Volume 1

Luis - 2001-05-23

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Asas nos pés...


Quando entrou na aula, os pequenos, de pé, junto às carteiras envernizadas, deram os bons dias, em coro, mas sem o ar festivo de outros tempos.
- Podem sentar-se.
Houve um cicio apenas. Aprumadas nos bancos, as crianças ficaram hirtas, atentas, de olhos postos no estrado alto.
Entrava, pelas janelas, o perfume doce dos campos. Sentia-se, ao longe, a sinfonia metálica de um engenho e, perto, no beiral da casa, chilreavam andorinhas, num cortejo frenético e azul.
O professor encarou os alunos.
Na primeira fila, lá estava o Luis, o mais turbulento da classe.
Ia dar a última aula.
Recebera, dias antes, como sentença de morte, a comunicação. Uma comunicação breve, delicada, clara, mas irrevogável. Chegara ao cabo duma longa carreira. Ele tinha de deixar o seu mundo, um mundo de meio século – uma vida inteira !
- Vamos começar !
Comovido, quis desvirtuar a própria comoção. E, engrossando a voz num artificialismo cómico, mentiu, julgando que o acreditariam.
- Sim, porque hoje é um dia como qualquer outro. Ouviram ? Ouviram bem ? E quem não souber a lição... Ah, quem não souber a lição...
Os pequenos continuaram a olhá-lo como figuras de pedra. Mas, em alguns olhos, apareciam lágrimas.
- Vamos à leitura. Página 20.
Desceu porém do estrado, encaminhando-se para uma das janelas abertas.
Lá fora, junto ao caminho, o pequeno carreiro sinuoso que conduzia à escola. O mesmo, como há cinquenta anos atrás, quando ele, vindo de longe, de muito longe, chegara para ocupar o seu lugar de professor.
O sol batia-lhe agora nos cabelos prateados, que desciam quase até à nuca.
Como os anos tinham passado depressa !
Dir-se-ia que o tempo voara impulsionado pelo sortilégio de velhos alquimistas. Fora preciso aquela ordem para lhe lembrar os seus setenta anos.
Setenta anos ! Cuidava-se ainda com vinte.
Voltou-se.
Na sala, o mesmo silêncio – silêncio de morte, silêncio do fim !
- Porque me fitam dessa maneira ? Mas, eu já disse : hoje é um dia como outro qualquer. Porque não fazem barulho ? Porque se não magoam ? Porquê ? Porquê ?
E repisou, erguendo a voz insegura:
- Hoje é um dia como outro qualquer !
Mas, de súbito, virando as costas para a classe, rogou, espalmando, suplicante, a mão direita:
- Saiam. Saiam todos. Deixem-me só. E nem uma palavra. Não me digam nada. Depressa ! Depressa !
O silêncio tornou-se maior, depois, os pequenos levantaram-se e, um a um, foram saindo, de olhos no chão, em bicos de pés. Passaram, daí a pouco, debaixo das janelas, como revoada de pombas a que tivessem cortado as asas. Os pezitos raspavam na terra solta, e nuvens de pó envolviam os babeiros brancos.
Então, o velho professor sentiu chorar atrás de si. Voltou-se, com pânico. O Luis, que ficara no lugar, soluçava baixinho, apoiando a cabeça ao braço esquerdo.
- Luis ! Luis ! Meu filho ! Pois tu...
Foi buscá-lo ao lugar. Apertou-o muito ao peito, beijou-o na cabeça, na testa, na face ( como eu ainda sinto hoje esse aperto e aqueles beijos escaldantes !...).
- Não chores, Luis. Mas, que tolice ! Estás um homenzinho ! Vai chegar um professor novo. Eu já estava velho, meu filho. Muito velho Luis !... ( parece que ainda foi ontem que o ouvi dizer estas palavras !).
O pequeno recobrou o choro.
- Então, então ! Vá, sossega... Olha que eu zango-me ! Luis !...
Depois, com os olhos vidrados de lágrimas, murmurou:
- Senhor ! Senhor ! Levai-me agora !

*************************
O tempo correu, correu depressa.
E, quando a noite descia, o velho rondava a escola, como um namorado intranquilo.
Tacteava as paredes, numa volúpia inexplicável, sentava-se nos degraus, pisava o recreio, misturando, com as suas, as pegadas das crianças.
Adoeceu e esteve à morte.
E, uma noite, ergueu-se de manso, abriu a porta de sua casa e caminhou em frente.
O luar caía como uma benção, toucando os montes e as árvores.
Não ficava longe a escola, que, sob as estrelas, parecia ainda maior projectada no silêncio.
Não havia vento nas ramagens, nem rumores vivos a toda a volta.
Estacou.
- A minha escola ! A minha escola ! Foi dentro dela que a minha vida se gastou. Dias, meses, anos, longos anos de canseiras, de ansiedades de desgostos, e de alegrias.
Gritou:
- A escola é minha !
Mas, as próprias palavras o assustaram.
- Parece-me que gritei ! Se me ouvissem ? Talvez me cuidassem de doido.
E, baixando mais a voz:
- E eu não estou doido ! Ou estarei ? Quem sabe ?!... Quem poderá sabê-lo ?...
O luar espalhava-se mais e mais, adoçando as sombras. As arestas do edifício perdiam a agressividade, de tão iluminadas.
E o silêncio da noite morta quase tornava sonoro o mutismo das coisas inanimadas. As pedras, as árvores, a terra e as flores, iam comunicar entre si. Um fio as separava agora. Um fio que ia romper-se, dum momento para o outro.
- A escola é minha ! Tenho direitos sobre ela ! Sim, direitos ! Ninguém poderá afastar-me. Ninguém ! Estas pedras são a minha carne. Ouves ? Tu ouves ? Durante meio século, eu tive-te nos braços... Não é assim de repente que tudo se poderá acabar. Eles cuidam que sim. Eles não entendem isto. Pensavam que uma lei qualquer seria capaz de terminar com tudo, separar-me, destas pedras íntimas e queridas... A lei ! Acima da lei, está a minha ternura !
Alucinadamente, abriu mais os olhos e estendeu para a frente os braços trémulos. E começou a caminhar...
- «Luis, porque não estudaste a lição ? Estiveste doente, Manuel ? Vai ao mapa, Joaquim. Quem te fez mal, João ? Deu a hora, podem sair !...» Ah, mas eles não fizeram barulho. Porquê ? Têm asas nos pés... De que se haviam de lembrar: asas nos pés ! Assim, não há fruta que vingue. Voam às árvores, transpõem muros, vedações...
« Não chores, Luis ! Estás um homenzinho !...»


E pela manhã, quando os pequenos chegaram à escola, foram encontrar, caído, na escada de pedra, o velho professor.
Tocaram-lhe a medo. Estava frio. Mas, nos seus olhos, muito abertos e parados, havia duas gotas de luar, refulgindo ao sol nascente...


Falripas da Vida Viva

Luis – 2001-05-04