Mostrar mensagens com a etiqueta Falripas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Falripas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Meu Deus É... Diverso !...


O Meu Deus É... Diverso !...


O meu Deus É... tudo o que o homem ama.
Mas É também e sobretudo,
esse «diverso» com que o homem sonha.
É tudo aquilo que o homem não tem.
É tudo aquilo que ele tenta alcançar.
O meu Deus É... esse algo que o homem sabe
que pode existir e É distinto de tudo.
O meu Deus É... a capacidade de surpresa
para todo o homem.

O meu Deus começou... onde o homem diz:
«Pensei que fosse outra coisa!»

Sonha o homem, luta e trabalha
e peca para conquistar um posto,
um amor, uma conta corrente, um título,
e quando está a saborear o seu triunfo,
este começa a parecer-lhe pequeno...
E o seu coração volta a girar
à volta de um novo desejo.

O meu Deus está... detrás
de cada desilusão do homem,
como a voz que grita:
«Necessitas de algo que seja sempre distinto,
novo, que não tenha fim...»

O meu Deus É... esse algo «diverso»
de que o homem necessitará sempre
para sentir-se
«semelhante a Deus»(!)



Falripas do Meu Deus – Volume 1


Luis – 2002-11-07

sábado, 14 de novembro de 2009

Madalena


- Disse-lhe Jesus: Maria !
Ela, voltando-se, disse-lhe: Mestre ! -
João: 20-16

Dos factos mais significativos do Evangelho, a primeira visita de Jesus, na ressurreição, é daqueles que convidam à meditação substanciosa e acurada.
Por que razões profundas deixaria o Divino Mestre tantas figuras mais próximas da sua vida, para surgir aos olhos de Madalena, em primeiro lugar ?
Somos naturalmente compelidos a indagar porque não teria aparecido, antes, ao coração abnegado a amoroso que lhe servira de Mãe, ou aos discípulos amados...

Entretanto, o gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência divina.
Dentre os vultos da Boa-Nova, ninguém fez tanta violência a si mesmo, para seguir o Salvador, como a inesquecível obsidiada de Magdala. Nem mesmo Paulo de Tarso faria tanto, mais tarde, porque a consciência do apóstolo dos gentios era apaixonada pela Lei, mas não pelos vícios.

Madalena, porém, conhecera o fundo amargo dos hábitos difíceis de serem extirpados, amolecera-se ao contacto de entidades perversas, permanência «morta» nas sensações que operam a paralisia da alma. Entretanto, bastou o encontro com o Cristo para abandonar tudo e seguir-lhe os passos, fiel até ao fim, nos actos de negação de si própria e na firme resolução de tomar a cruz que lhe competia no calvário redentor da sua existência angustiosa.
É compreensível que muitos estudantes investiguem a razão pela qual não apareceu o Mestre, primeiramente a Pedro ou a João, a sua Mãe ou aos amigos. Todavia é igualmente razoável reconhecermos que, com o seu gesto inesquecível, Jesus ratificou a lição de que a sua doutrina será para todos os aprendizes e seguidores do código de ouro das vidas transformadas para a glória do bem.

Ninguém, como Maria de Magdala, houvera transformado a sua, à luz do Evangelho redentor.



Falripas de Jesus – Volume 1

Luis – 2001-01-23

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Boneca Partida


Foi no caminho de Betânia
que Jesus sentado estava,
numa pedra à beira rio
o Monte das Oliveiras fitava.

Com Seu olhar calmo e triste
envolto na claridade do fim do dia,
Seu momento final se aproximava
e isso Ele bem o sabia...

Sim, Ele sabia que em breve
o caminho do calvário o esperava,
p’ra que as Escrituras se cumprissem
como previsto, palavra a palavra...

Seu esp'irito estava pronto
Seu coração apertado sentia,
numa profunda tristeza,
que Seu sacrifício não aproveitaria.

Contudo uma infinita doçura havia
no Seu olhar que seguia o rio,
e foi então que viu uma pequenita
que caminhando distraída O não viu.

Devagar e de braços pendentes,
numa mão uma boneca de barro,
grossas lágrimas lhe corriam
como um rio, p’los olhos ardentes

- Choras por se ter quebrado tua boneca?
O bom Jesus lhe perguntou.
- Vem, talvez Eu possa ajudar-te...
Conta-me pequenina, o que se passou!?


Surpreendida a pobre pequenita
recuou de pronto assustada,
apertando forte contra o peito,
a sua pobre boneca quebrada.

Mas, ao ver a luz de imensa bondade
irradiante d’Aquele olhar desconhecido
aproximou-se, mostrando já confiante,
a boneca de barro de braço partido.

Caiu no chão e quebrou-se...
disse a menina, em voz lacrimosa
- Não sei o que hei de fazer...
E o seu rosto iluminou-se.


Teria oito anos, ou talvez nove,
numa face magra e pálida,
dois olhos brilhavam
límpidos e tristes, na tarde cálida.

- Não tens outra boneca ?...
perguntou-lhe docemente Jesus.
- Não tenho...sempre tive só esta
outra não desejo, nem me seduz!

- Deu-ma meu pai, quando doente
meu pai, era oleiro e já morreu !

- Morreu?
- Morreu, levou-o a febre...
hoje rezo por ele, que está no Céu !


Jesus tinha pegado na boneca
que com seus dedos acariciou.
A menina silenciosa o observava
e foi então que murmurou:

- Rabi... Tu és o Rabi...
Por que razão me chamas assim ?
- Tu és Jesus de Nazaré, o Mestre
Poderás fazer um milagre p’ra mim?


- Podes curar a minha boneca ?
Sim, eu sei que Tu podes, Rabi!

- Escuta filha ... tua Fé é simples,
Como tu o és, nasceu em ti !


- Só Deus é bom, são d’Ele os milagres
que dizem feitos por mim ...
Os milagres são uma prova ...
Mas a verdadeira Fé, escuta, é assim...


- Se plantares de uma roseira um pé,
tu não sabes como, mas rosas nascem,
porque o acreditas, ainda que o não entendas
assim tu chegarás à verdadeira Fé !


-É preciso acreditar mesmo quando se não sabe
ou quando ainda não há entendimento.
Eu vou consertar a tua boneca partida,
e será como das rosas o nascimento !

Enquanto falava Jesus apanhou
algum barro húmido do chão,
e o braço da boneca moldou,
colocando-o onde estava então.

A menina O olhava com espanto
Sorrindo, p’ra boneca e p’ro Rabi.
Agora vai...- disse Jesus sorrindo,
vem perto a noite, e esperam por ti !


- Mas, a boneca não volta a partir-se?
Talvez minha filha... e eu não estarei aqui,
mas se te lembrares do que Eu te disse
e se tiveres Fé, continuarei perto de ti !


Apertando a boneca contra o peito,
sorrindo e fitando Jesus,
dizendo adeus abalou,
quase correndo, no fulgor da luz.

Pouco tempo depois chegaram,
os dias sombrios, contam os Evangelhos
a traição e os que O crucificaram,
a morte no calvário... os factos já velhos.

E foram ainda de bondade e perdão
as Suas palavras antes de morrer...
«Perdoai-lhes, Senhor, que eles
não sabem o que fazem...»

Estava escrito, tinha que acontecer !

Tinha morrido Aquele que trouxera
ao mundo a mensagem divina
a mensagem de amor e de esperança
Aquele que tudo vê, tudo sabe...
e tudo de bom ensina !

Toda a sua curta vida pregara
o esquecer das injúrias, o perdão
A tolerância, a paz, a bondade,
o entendimento, a compreensão.

Morreu às mãos daqueles que no tempo
alimentavam ideias de ódio, não de amor.
De fanatismo, vingança soberba, maldade,
não de humildade, a que Ele deu valor.

E, tal como Ele já nessa tarde triste sabia,
outros homens depois viriam,
que continuariam a ser injustos e soberbos,
intolerantes, maus... que se não amariam...

Tinham decorrido dois anos.
na casa pobre da viúva do oleiro
a menina a quem consertara a boneca,
olhava-a com tristeza, o dia inteiro.

Um golpe de vento fizera cair
aquela tosca figurinha de barro,
quebrando-a, deixou-a sem cabeça
sem um suporte, um agarro.

A menina tinha agora onze anos
vivos, a mesma limpidez,
a mesma expressão calma e triste
mas irradiando esperança, outra vez.

Diante da porta um pé de roseira floria, olhos
em botões ainda não desabrochados,
mas donde saía já um perfume discreto
Estávamos em Abril... nos meados.

E a menina murmurou, baixinho:
- Eu recordo as tuas belas palavras,
Rabi de olhar doce. Plantei a roseira,
ela já deu as rosas de que me falavas.


- Eu lembro-me do que me disseste...
que continuarias perto de mim,
quando a boneca voltasse algum dia
a partir-se...
Sinto-te a meu lado Rabi !

- Sinto, sei que Tu me ouves...
E vê, a boneca está de novo partida...
E num murmúrio balbuciante dizia:
- Jesus ! Por favor dá-lhe vida !...

Era ao anoitecer e as sombras subiam
vagarosamente em volta da gente,
a casa era frouxamente iluminada,
por uma antiga candeia de azeite.

Lá fora, nas árvores do poiso próximo,
um rouxinol começou a cantar,
nos seus gorjeios uma estranha melodia
diferente das outras noites se fez soar.

Era uma melodia alegre e suave,
que a lâmpada de azeite fez brilhar
num intenso clarão tão estranho,
que a pequenita fez despertar.

E a pequenita repetiu então:
A boneca está outra vez partida,
Rabi compassivo e bom...
Sei que me ouvis-te... dá-lhe vida !

Sobre a pedra da chaminé,
A boneca estava de novo inteira ...






Falripas da Minha Catequese – Volume 1

Luis – 2001-04-05


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O Meu Deus Dorme Em Qualquer Lado...

O Meu Deus Dorme Em Qualquer Lado....




Ao meu Deus nunca chegam as palavras...


Quando vejo brilhar estrelas no céu
os meus olhos ficam cheios de lágrimas,
o meu coração envolve-se num véu !

É quando os meus dedos
se elevam espectrais
não tendo, eu sei,
o valor das catedrais...

Mas são qual vela branca
em barco navegando
sobre mar proceloso
em vão tentando,
abrir caminho a custo
até ás estrelas,
de Ti cioso...

Talvez por encontrar
sinais da Tua voz,
sem pensar ou ver
que longe e perto
Te encontras
nunca nos deixando sós...

Nas areias do deserto,
na selva africana,
no igloo dos esquimós
ou ainda adormecido...
dentro de nós !...





Falripas do Meu Deus – Volume 2

Luis – 2003-12-09

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Recordando minha avó



Minhas Primeiras Lições

- Criar o que jamais veremos, eis a Poesia... –

Como ainda recordo, minha Avó,
o meu primeiro livro de leitura,
e as primeiras lições que recebi !
Mimoso, eterno legado
que me viera de Ti !
A mais saudosa lembrança,
do meu passado risonho
de criança !

No cantinho da cozinha,
uma aula improvisaste.
Ainda não estavas velhinha
como quando me deixaste !...
Tempos que não voltam mais !

No quintal a pardalada,
chilreava em ar de festa !
Vinha, de fora, o perfume
dos trigais e da giesta.
Ao que a vida se resume !...

Tinha meia dúzia de anos
(meia dúzia de brinquedos)
sentavas-me em tua frente
e sempre com gestos lêdos
afagavas docemente,
os meus lindos cabelos...

Abrias, sobre os joelhos,
a « Cartilha Maternal »
(um dos melhores evangelhos)

eu hesitava... depois,
ia rezando contigo minha Avó:
- « B e A – BÁ; B e O – BÓ...»

E com vontade, estudando,
fui aprendendo e sonhando
saber mais e muito mais...
pouco tempo decorrido,
«papagueava» a meus pais:
- « Este livro é do Luis...»

Era um «homem»... já sabia !
beijos, abraços... sei lá !...
Ai, como tudo se perde !

E até li, já no final,
essas páginas de luz,
que encerram o belo poema
desse poeta genial:
« Andava um dia,
em pequenino,
nos arredores da Nazaré,
o Deus Menino,
o Bom Jesus...»


Só o que nunca aprendi
(a «Cartilha» não rezava,
e Tu nunca mo disseste...)
É que houvesse gente escrava
de outra gente...
Nem sonhava, francamente,
que existissem vis tiranos,
senhores de um poder profundo,
que fazem correr no mundo,
rios de sangue entre os humanos !

Julgava que em todo o homem
( foi assim que me ensinaste )
existisse um São José
bondoso, sereno e franco,
que passeava o Menino,
à tarde, pelos arredores
da lendária Nazaré !
Poderia lá supôr
que a vida fosse um barranco
tão difícil de transpôr !...


Ai, nunca, nunca pensei
que a minha infância morria,
que o meu destino mudava,
e que para sempre Te perdia !
Que a minha vista cansava,
ceguinha de tanto ler,
numa existência perdida,
o livro falso da Vida,
sem nunca o compreender !

Ai, nunca, nunca pensava !...

E quanto mais prosseguia,
nesse cântico divino,
uma suave harmonia,
tão doce e estranha, invadia
o meu sentir de menino !
Tão real, que aos olhos meus,
surgiam os vastos Céus,
e Jesus, brincando, via !...

E não estranho, já se vê,
que se operasse a maravilha...
pois se até o próprio autor
da «Cartilha»
era... de Deus !...

E aquelas letrinhas de oiro,
de tão mágica sedução,
eram estrelas candentes
a oscilarem, perdidas,
no céu da minha ilusão !
E quando me disseste que «sabia»,
nova estrela raiou naquele dia !

Beijaste-me, então muito,
minha Avó,
cheia de orgulho e de afecto,
de com teu parco saber,
teres sido Tu a primeira
professora do teu neto.


E assim aprendi a ler !

Que bom que eu nunca crescesse,
que outro livro mais não lesse
que esse tesouro de infância !


Agora, desiludido,
sabendo que nada sei,
do mundo perdida a crença...
Sinto uma saudade imensa
dos meus sonhos a mil !
Daquela ingénua ignorância,
dos tempos em que era «rei»
do meu domínio infantil !

Ai como tudo se perde !

Como ainda recordo, minha Avó,
as primeiras lições que recebi !...


Mas a morte, que tudo arrebata,
Não arrebatará este meu canto !

Porque eu nunca o deixarei, minha Avó.




Falripas de meus Avós
Luis – 2001-03-27

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Meu Deus É Poeta !...



O meu Deus é poeta.
Porque o poeta é
o que melhor sabe
expressar em palavras,
os sentimentos mais profundos
e escondidos do mundo.

E o meu Deus se fez palavra.
Uma palavra tão clara,
tão sugestiva e tão nova,
que é a poesia.

Uma palavra que o mundo
esperava desde sempre.
Uma palavra que disse tudo.
Uma palavra que é inédita.
Uma palavra que assombra!

O meu Deus É uma poesia nova,
porque Cria o que canta.
Os outros poetas cantam o que sonham
o que amam, o que quiçá,
nunca acontecerá...


A poesia do meu Deus É um milagre:
«Anda, levanta-te!»:
é um verso de amanhecer,
mas um verso criador
porque a criança morta,
voltou à vida.

«Este é o meu corpo!»:
é um verso do entardecer,
mas desde então
Deus É do Mundo,
e O podemos comer.

«Os teus pecados serão perdoados!»:
é um verso no coração da noite,

mas desde então,
a neve aparece em todas as estações...

«Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso!»:
é um verso para além do tempo,

e desde então,
o infinito e o eterno,
correm pelo nosso sangue,
alimentando a nossa esperança.

O meu Deus é poeta
porque Sabe dizer as coisas
mais difíceis e mais assombrosas,
com a doce naturalidade
de uma criança.

O meu Deus é poeta
porque Sabe encher de luz
o mais sombrio.
Porque Sabe dar calor
ao mais frio.
Porque Sabe desenhar a esperança,
até no muro sujo da vergonha.

O meu Deus é poeta
porque Faz vibrar quando toca.
Porque Sabe fazer o milagre,
do que apenas merecia um verso:
até a miséria.

O meu Deus poeta recolheu,
em Seus olhos,
na Sua passagem pela terra,
toda a poesia...
escondida, nela, nas coisas e nos homens.
Por isso o Seu olhar,
está coberto de poesia.

Por isso não existe um verso,
que Ele não tenha escrito,
recitado ou sentido.
Até este !


E o meu Deus segue sendo,
a poesia eterna,
porque segue sendo,
a palavra sonora ou silenciosa.
Ele segue sendo
no coração dos homens,
O grande julgador da história.

O meu Deus segue sendo poeta
porque Nele não há mais que:
beleza, sensibilidade, ternura,
inteligência, profecia e paixão,
por tudo aquilo que Ele é.

Todo o poeta verdadeiro é de algum modo
um revolucionário,
porque escava, com arte,
no fundo das coisas
e as águas alvoroçam-se,
e gritam a sua sujidade escondida.

Por isso O meu Deus
É o verdadeiro revolucionário
da história.

Por isso a Sua poesia,
é sempre actual e viva.
Por isso os Seus versos,
são sempre um despertar,
um empurrão, um alarme.

É difícil O meu Deus poeta,
O meu Deus revolucionário,
O meu Deus sensível,
Para quantos pensam Nele
em termos matemáticos,
para quem não O concebe,
enamorado das coisas tangíveis,
para quem prefira um Deus mudo,
impenetrável, impassível.


Mas O meu Deus será sempre poeta,
poeta do infinito
e poeta da terra,

da minha terra,
da minha pobre terra,
da minha doce terra.

O meu Deus É sensível
a toda a vibração
de poesia viva,
de carne e sangue,
humana.

O meu Deus É a poesia
feita pessoa.


O meu Deus É a inspiração
de todo o ser vivo
a quem faz chegar
a cada instante,
essa palavra misteriosa
que o faz viver,
e que lhe recorda que
a vida não é absurda.

Por tudo isto...
- «O meu Deus É poeta!»




Falripas do Meu Deus – Volume 1

Luis –2002-11-07

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Retrato e Despedida de Mãe



- Mãe !

Passa a tua mão pela
minha cabeça !
Quando passas a tua mão na
minha cabeça é tudo tão verdade ! -
José de Almada Negreiros



Retrato...
Uma simples mulher existe que, pela imensidão do seu amor, tem um pouco de Deus; e pela constância da sua dedicação, tem muito de Anjo; que, sendo moça, pensa como uma anciã, e, sendo velha, age como as forças todas da juventude.
Quando ignorante, melhor que qualquer sábio desvenda os segredos da vida e, quando sábia, assume a simplicidade das crianças.
Pobre, sabe enriquecer- se com a felicidade dos que ama, e, rica, empobrecer-se para que o seu coração não sangre ferido pelos ingratos.
Forte, entretanto, estremece ao choro de uma criancinha, e, fraca, entretanto, alteia-se com a bravura dos leões.
Viva, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam, e, morta, tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para vê-la de novo e dela receber um aperto de seus braços, um afago das suas mãos na nossa cabeça, uma palavra dos seus lábios...

Não exijam de mim que diga o nome dessa mulher, se não quiserem que ensope de lágrimas estas linhas; porque eu a vi passar no meu caminho... ainda que muito brevemente...
Quando crescerem vossos filhos, leiam para eles esta página; eles lhes cobrirão de beijos a fronte; e dirão que um pobre viandante, em troca de sumptuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o retrato e a despedida de sua própria Mãe...

Despedida...

« Na hora da morte dedico aos meus filhos...»

Deixo a vida uma criança
na flor da minha idade.
Deixo cá muitas amigas
e três filhos na orfandade.

Eu mostro sempre alegria
e boa disposição.
Mas levo muita tristeza
dentro do meu coração.

Eu levo comigo gestante
os meus queridos filhinhos,
pois bem cedo eles ficam
da Mãe sem ter carinhos.

Sei que eles ficam bem
há outros que ficam mais mal,
mas levo muito desgosto
de não os poder criar.

Aceito a morte bem
pois acabo de sofrer,
mas os meus filhinhos
nunca mais os torno a ver.

Há três anos que estou doente
na esperança de melhorar,
para eu poder um dia
os meus filhinhos abraçar.

Mas Deus achou demais
para mim essa alegria,
e sem me despedir deles
vou para a terra fria...


Carolina Monteiro (Ano 1949)


Falripas de Minha Mãe – Volume 2
Luis – 2001-03-28

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O Fenómeno mais raro na Vida?


«A vida é um dever, também se deve suportar a música...»

Quando falaste a primeira vez, falaste de….

Há poucas horas, as tuas palavras foram…. (as mesmas)
Sim, as palavras «retornam». Tudo retorna, as coisas e as palavras andam em círculo, depois encontram-se, tocam-se e encerram qualquer coisa…
Pergunta-me, o quê?
O que é que se pode perguntar das pessoas com «palavras»? O que vale a resposta que uma pessoa dá com «palavras» e não com a «realidade da sua vida?»... Vale pouco.
São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo às «realidades» das suas vidas. Talvez seja este o fenómeno mais raro na vida !
Não me refiro aos mentirosos, aos menos escrupulosos. Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiência, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o «carácter pessoal». É a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios nem mais protegidos…
Onde está o limite entre seres humanos?
Porque não só as coisas acontecem com as pessoas. Cada um «gera» também aquilo que acontece consigo. «Gera-o», «invoca-o», não deixa de escapar aquilo que tem de acontecer. O homem é assim. Fá-lo, mesmo, que saiba e sinta logo desde o primeiro momento, que tudo o que faz é fatal. O homem e o seu destino «seguram-se» um ao outro, evocam-se e criam-se mutuamente. Não é verdade que o destino entre cego na nossa vida, não. O destino entra pela «porta» que nós mesmos abrimos, convidando-o a passar. Não há nenhum ser humano que seja bastante forte e inteligente para desviar com «palavras» ou com acções o destino fatal que advém, segundo leis irrevogáveis, da sua natureza, do seu carácter.
Dizia-me a certo ponto: «Já é tarde para isso…» Será?...
Alguns dizem-me que sou uma pessoa «diferente»…
Não percebo essa palavra, ainda não sei que significa «ser diferente»… (e muito menos só para alguns). Muito tempo e muitas horas solitárias, que se trata sempre disso, relação entre homem e mulher, amizades, relações mundanas, tudo depende disso: das diferenças que dividem a humanidade em dois grupos. Às vezes penso que só existem esses dois grupos no Mundo, e todas as variantes da sua «diversidade», as diferenças de classe social, de ideologias e de graus de poder, tudo advém dessa «diversidade». E, tal como apenas as pessoas do mesmo grupo sanguíneo podem ajudar-se nos momentos de perigo, ao dar o seu sangue a alguém que pertence ao mesmo grupo, assim a alma humana só pode ajudar outra alma humana, se não for «diferente», se o seu ponto de vista, a sua «realidade mais secreta» que a sua convicção, forem «semelhantes»…
Palavras de minha Avó, que não lia livros, mas a quem a solidão e a vida (a tal «bíblia da vida») tinham ensinado a conhecer a verdade; ela sabia dessa «diversidade», sim, ela também tinha encontrado um homem a quem amava muito, a cujo lado, porém, se sentia sozinha, porque eram duas pessoas «diferentes», dois temperamentos, dois ritmos de vida diferentes, porque a minha Avó era «diferente»…
O maior «segredo» e a maior «dádiva da vida», quando duas pessoas «semelhantes» se encontram. Isso é tão raro como se a Natureza «impedisse» com força e astúcia essa «harmonia» – talvez porque para a criação do Mundo e para a renovação da vida, necessita de «tensão» que se gera entre as pessoas que se procuram eternamente, mas que têm intenções e ritmos de vida «opostos»…
Sabes, «corrente alterna»… (dizia-me ela) onde quer que olhes, lá está essa troca de forças «positivas» e «negativas»…
E desde então me questiono: «porque ardem as velas até ao fim?»



Falripas da Vida
Luis - 2008-01-20

domingo, 27 de setembro de 2009

O Meu Deus É Desconcertante!...



O meu Deus É desconcertante:
É íntimo e É transcendente,
É doce e É violento,
É eterno e nasce sempre.
Bendiz o que tantos temem,
Ama o que tantos depreciam,
Pede o que parece impossível...

Está sempre presente
e ninguém vê a Sua cara.
Quem ama o próximo,
ama a Ele.

Quanto mais me aproximo Dele,
quanto mais O amo,
menos O entendo...
É o amor e existe o inferno.
É alegria e dor ao mesmo tempo.
É santo e foi amigo de pecadores.
É virgem
e Se deixou tocar
e amar pelas prostitutas.
Clamou contra os ricos
e comeu com eles.

É difícil
O meu Deus desconcertante,
para o homem que deseja medi-Lo,
para quem quiser impor-Lhe uma lógica,
pois Ele escapa a todas as lógicas,
e a todas as nossas medidas


O meu Deus É assim:
maravilhoso, inefável,
único e desconcertante.
É o ser em movimento,
É o que foi,
O que é e o que será.

Ele É tudo
e nada é
O meu Deus desconcertante.
É Aquele a quem:
Se crê sem se ver,
Se ama sem Lhe tocar,
Se espera sem O entender,
Se possui sem O merecer...



Falripas do Meu Deus – Volume 1

Luis – 2002-11-07

domingo, 20 de setembro de 2009

Ó Moinho Abandonado !


Ó moinho abandonado
Gigante de pedra e cal
Guardião das serranias
Venho-te aqui visitar
Porque sabes fui criado
Com o pão que tu moías

Já não tens velas nem nada
Estás sozinho sem ninguém
Estás todo desmantelado
Junto a ti querido moinho
Com a Santa de minha Mãe
Sabes bem que fui criado

O vento errante dançava
nos braços do meu moinho,
e o meu moinho cantava
porque não estava sozinho


« Ó vento vem-me contar
os segredos que me trazes
do Mundo, através do tempo »

E na dança com o moinho,
o vento errante cantava :

« De afectos desencontrados,
vi gente que se matava;
em terras que nunca viste,
crianças morrem de fome
míngua do que tu crias,
soluçam outros no escuro
por terem as mãos vazias,
e entregam-se a curto prazo
corpos eivados de cio...


PORQUE TE HEI-DE CONTAR
AQUILO QUE DEUS NÃO VIU ? »...


Eu sou carne e tu és pedra
mas somos da mesma terra,
ambos do mesmo lugar.
Já não te via há vinte anos
e com imensa saudade
te venho aqui visitar

Tenho estado na cidade
onde a vida é uma corrida
e passa ao lado da verdade.
Venho-te aqui visitar
ó moinho abandonado
porque és da minha idade

E o vento errante dançava
Nos braços do meu moinho
E o meu moinho cantava
Porque não estava sozinho


« Ó vento, vem-me contar
os segredos que me trazes
do Mundo, através do tempo »


E na dança com o moinho,
o vento errante cantava :
« Vi olhos que, cheios de ódio,
abraços petrificava :
vi posturas de impossíveis
em mãos de todos os dias;
Em terras que não conheces
de gente que nunca viste,
vende-se e compra-se de tudo,
honra, amor e dignidade,
beijos, passado, verdade !
Há tanta coisa esquecida,
tanta coisa abandonada,
que a alma marmorifica-se
numa escultura de frio.

PORQUE TE HEI-DE CONTAR
AQUILO QUE DEUS NÃO VIU ? »...

E o moinho descarnado,
já sem velas nas madeiras,
girava, rodopiado
de mil e uma maneiras !

«Endoideceu, coitadinho,
endoideceu o moinho ! »

Diziam as escusas aves
que pernoitavam no ar.


E o moinho endoidecido
continuava a girar,
sem vento, brisa ou razão,
continuava a cantar...

Hoje o moinho é sozinho,
mas ouve o vento dizer
enquanto roda a gemer,
todo de branco e vazio :

PORQUE QUISESTE SABER
AQUILO QUE DEUS NÃO VIU ?...


Há silêncio no teu corpo
( o moinho não tem gesto ).
Os teus olhos estão fechados
( há névoa a cobrir o mar ).
Respiras devagarinho
( o vento passa contente ).
As estrelas coniventes,
afastam-me o pensamento
quando eu me vejo nelas.
Mas de que serve haver vento...
se o moinho não tem velas ?...



Falripas da »Vida Viva»

Luis – 2000-12-07

Esboço Imperfeito


O silêncio leva em si a Tua voz,
como o ninho a música
de suas aves adormecidas!

Madeiro às costas, lá sobe
a ladeira do destino;
Seu peito é nave rangendo...
E o Seu coração, como um sino,
soa lá dentro batendo!

Como os Seus passos, no chão,
lembra o som das tempestades
O bater do Seu coração...

Madeiro às costas, lá trepa,
lutando contra a subida
e os abismos a vencer;
mais do que o peso da vida
- mais do que a dor de a não ter! -
Lhe
pesa a dura indiferença
de quem passa sem
O ver!


A Seu lado sobem outros,
num cortejo singular:
cruz aos ombros; e nos peitos
onde há noites sem luar
e que são naves rangendo,
ouvem-se sinos a dobrar...
Corações que vão batendo!

E os sinos que vão dobrando
choram a luz que anda ausente
dos peitos que vão trepando...
Sobe mais... e a dura carga
fere-Lhe os ombros dormentes:
Tem sede, - que sede imensa! -
de água pura das nascentes,
da Verdade, e da presença
dos dias que já passaram
com Seus sonhos inocentes
que, como as fontes, secaram!

A Seu lado vão subindo
outros vultos desolados:
sob o vento do Destino
são como vimes dobrados...

E em cada peito rangendo,
O Seu coração, como um sino,
lá vai dobrando a finados,
lá vai subindo e batendo!...

Enche-Lhe o Sol o caminho
e a Terra, farta, sorri...
Que importa?
Foge-Lhe tudo...
e é noite dentro de Si!




Falripas de Meditação - Volume 3


Luis - 2002-12-02

O Messias



«Quando me lembro de Ti, no meu leito,
passo vigílias a meditar em Ti,
pois Tu foste um socorro para mim,
e, à sombra das Tuas asas, eu grito de alegria!»

Salmo 63:7,8



O Guru (chefe religioso indiano) que se encontrava a meditar na sua cova do Himalaia, abriu os olhos e descobriu, sentado na sua frente, um inesperado visitante: o abade de um célebre mosteiro.
«Que desejas?» - perguntou-lhe o Guru.
O abade contou-lhe então uma triste história: Noutros tempos, o seu mosteiro tinha sido famoso em todo o mundo ocidental; as suas celas estavam cheias de jovens noviços, e na sua igreja ressoava o harmonioso canto dos seus monges. Mas tinham chegado maus tempos: o povo já não acudia ao mosteiro em busca de alimento para o seu espírito; a avalancha de jovens candidatos havia cessado e a igreja achava-se silenciosa. Só restavam uns poucos de monges, que cumpriam triste e rotineiramente as suas obrigações. O que o abade queria saber era o seguinte:
«Teremos cometido algum pecado, para que o mosteiro se veja nesta situação?»

«Sim» - respondeu o Guru - «um pecado de ignorância».
«E que pecado foi esse?»
«Um de vós é O Messias disfarçado e vós não sabeis». E dito isto, o Guru fechou os olhos e voltou à sua meditação.

Durante a penosa viagem de regresso ao seu mosteiro, o abade sentia como o seu coração palpitava ao pensar que O Messias, o mesmíssimo Messias, tinha voltado à Terra e tinha ido parar precisamente ao seu mosteiro! Como não tinha ele sido capaz de o reconhecer? E quem poderia ser? Acaso o irmão cozinheiro? O irmão sacristão? O irmão administrador? Ou seria ele, o irmão prior? Não, ele não! Por desgraça, ele tinha demasiados defeitos...

Mas a verdade é que o Guru tinha falado de um Messias «disfarçado». Não seriam aqueles defeitos parte do seu disfarce?...
Bem visto, todos no mosteiro tinham defeitos... e um deles tinha que ser O Messias!
Quando chegou ao mosteiro, reuniu os monges e contou-lhes o que tinha averiguado. Os monges olhavam incrédulos uns para os outros: O Messias... aqui? Inacreditável! Claro que, se estava disfarçado... então, talvez... Poderia ser fulano...? Sicrano...? ou Beltrano...?
Uma coisa era certa: se O Messias estava ali disfarçado, não era provável que o pudessem reconhecer. De modo que começaram todos a tratar-se bem, com respeito e consideração.
«Nunca se sabe!» - pensava cada um para si, quando tratava com outro monge. «Talvez seja este...»


O resultado foi que o mosteiro recuperou o seu antigo ambiente de harmonia e alegria transbordante. Depressa voltaram a acudir dezenas de candidatos a pedir para serem admitidos na Ordem, e na igreja voltou a ouvir-se o canto jubiloso dos monges, radiantes do espírito de Amor.





Falripas de Meditação – Volume 2

Luis – 2002-11-16

domingo, 13 de setembro de 2009




Recordando Minha Mãe

- Dedicado a minha Mãe, falecida há muitos ,
muitos anos, quando ainda haviam ermidas em que
os sinos tocavam e os meninos fugiam às Mães... –



Lembras-te Mãezinha
da velha ermidinha em
que de mãos postas, erguidas aos céus,
pedias por mim ?

E da doce imagem
de Nosso Senhor,
onde ias depôr,
ramos de alecrim ?

Lembras-te Mãezinha
das lindas peuguinhas
que tuas mãos de Fada
com tanta ligeireza
bordaram para mim ?

Lembras-te Mãezinha
quando tão doente,
tão triste e contente
quando eu te fugia
chamavas por mim ?

Que saudades, Mãezinha,
Que saudades !


Dos tempos já passados
e dos momentos tão lembrados,
em que em teu regaço
mimalho me deitava
e logo adormecia !

Mansa, a noite caía...
e, enquanto o sininho da ermida
badalava,
a tua voz doente
repetia:

Pai Nosso... Avé Maria !

Agora Mãezinha,
recordo o passado,
que vive para mim.

E rogo a Jesus,
que quando me leve,
me faça voltar...
para junto de Ti !...


Para eu matar...
saudades sem fim !...









Falripas de Minha Mãe – Volume 2

Luis – 2001-03-27