domingo, 20 de setembro de 2009

A Ponte dos Mentirosos



- Alguns não ouvem – não desejam ouvir – senão as
palavras que têm na cabeça. –

Josemaria Escrivá

A criança não é uma miniatura... Não ! É uma pessoa, como tal perfeita, a totalizar na sua humanidade pequena tudo o que pertence ao homem, mesmo a inteligência que se conhece em potência e em saídas raras e que, com o tempo se desenvolve até ao pleno funcionamento. Uma consequência derivante do instinto de defesa da criança é a mentira. Qual de vós é mentiroso ? Não basta os pais corrigirem os filhos mentirosos; seria bom dar-lhes uma lição frisante a esse respeito, como aconteceu no caso interessante que de seguida vos vou contar:

Era uma vez... um menino chamado Luis.
Luis é mentiroso. Feio defeito ! Como conseguirá o pai fazê-lo reconhecer que mentiu flagrantemente, primeiro passo para o corrigir ?
Um dia o Luis diz:
- Ó pai, sempre há cães que são enormes ! Eu ontem vi um cão que era do tamanho de um burro grande...
- Tens a certeza disso, Luis ?- Olha, eu vou à cidade. Queres vir?
Foram. A certa altura, o pai apontou ao filho uma ponte que se via ao longe.
- Luis, vês aquela ponte ? Quem me diz a mim que não é aquela a ponte do alçapão dos mentirosos ?!
- Que é isso
pai ?
- É uma ponte que, quando lá passa algum mentiroso, abre-se, debaixo dele um alçapão e cai ao rio...
O rapaz fica impressionado a matutar...
- Sabe, pai, o cão que eu vi ontem era do tamanho de um burro pequeno...
Deram mais uns passos: o rapaz tremia à aproximação da ponte.
-Olhe, pai,o tal cão não era como um burro, era só um cão grande.
Já chegaram à entrada da ponte: o rapaz pára, hesita...
- Vou dizer-lhe tudo, pai: eu ontem não vi cão nenhum especial...
- Está bem meu filho, mas já viste como é feio mentir ? Não tornes a mentir nunca. Os mentirosos, ainda que não caiam desta ponte, arriscam-se a cair da ponte que nos deve ligar ao Céu.





Falripas da Minha Catequese – Volume 1

Luis – 2001-04-12

Companheiros...





Realidade ? Sonho ?
Não sei. Jamais atino.
Caprichos do destino...
Quanta verdade eu ponho
naquilo que imagino !?...


Todos os alentejanos sabem que o Pego da Matinha é uma espécie de Judas iscariote de face lisa e amável, que vende e atraiçoa o primeiro. Lençol de águas paradas, bordado de folhas verdes de trevo, fica a dois passos do povo, entalado na mata de eucaliptos, à ilharga do córrego que desce das bandas de Espanha. Ávido e apressado, engole tudo que tenha a imprudência de lhe tocar os bordos – seja pedra que venha a resvalar e a cair, cerro abaixo, seja passo de homem ou bicho mal avisados.
Por isso, quando os filhos saem para a estrada em carreira, a sacola de pano com os livros da escola atirada sobre o ombro, o calcanhar, célere,
a bater o rabo dos calções, as mães vêm à soleira da porta esganiçar a voz num último aviso: « E não passes ao Pego da Matinha. Anda-me de largo, ouvis-te ? »
Contam-se coisas... Do almocreve bêbado que de regresso da feira de Beja lá se foi atascar, levando o burro manso bem atado ao pulso pela arreata; da moça da herdade, neta do porqueiro, que estava à espera dum filho sem pai e lá foi achar no buraco do pego esquecimento para a sua vergonha.
As mulheres benzem-se quando têm de passar-lhe perto, os homens descobrem as cabeças. Mas os moços... a esses parece que os atrai ali voz de sereia, chamando-os das profundezas turvas e limosas. Que talvez seja o próprio aviso rabugento a espicaçar-lhe o desejo de afirmarem uma
independência de pássaro solto no ar : « Não passes ao Pego da Matinha, entendido ? »
A verdade, verdade – é que o pego, largo e espelhado como um rio de águas paradas, é um coalho de rãs, peixes cabeçudos e até de enguias, que lhe trespassam o dorso de súbitos, ziguezagueantes arrepios. E, no Verão, quando o sol cai a pino sobre o mundo esbraseado, fazendo estalar a casca dura das árvores, e coze o coração das próprias aves que tombam do céu de asas retesas e bico entreaberto, o sítio, fechado na cerca rumorosa do eucaliptal, torna-se abençoado túnel de sombra e de frescura.

Porque a tarde era das tais, com um sol de lume vivo a arder no céu, impiedoso, o João e o Manuel tinham de comum acordo resolvido fazer feriado e não pôr os pés na escola. O corpo, alagado em suor, pedia-lhes descanso e fresquidão.
- E se fossemos ao Pego da Matinha ? – lembrou o Manuel – Batíamos lá uma rica sesta. Íamos depois à caça das rãs...
As boas ideias são tão raras que há que as agarrar em ambas as mãos como pássaros fugidios. Foi o que fez o João, pondo-se logo a trotar ao lado do companheiro, estrada fora. Encharcado de sol, o campo abria-se-lhes pela frente, estático e abrasado. O trigo não vira ainda gume de foice e as espigas, pejadas de grão, grossas e cor de ouro, vergavam para o solo as hastes humilhadas. Vasta arca de pão, a planície ali estava, generosa e aberta, à espera de quem quisesse colher-lhe a fartura.
Em quatro passadas, viram-se a pisar as terras secas, esboroadas do ferragial... Daí a alcançarem a mata de eucaliptos, era um salto de coelho. Ainda que o vento descansasse, a viola no saco e o rabo assentado no chão, fosse para as bandas do povo, da charneca ou do montado, ali, murmurava quase sempre uma brisa muito fina, sopro de folhagem ou bater de asas, quem sabe se a respiração presa do próprio rio.
Já de longe, o Manuel atirou pelos ares a sacola de livros que foi embater no tronco de uma árvore com um baque surdo de pinha madura a escachar-se no chão.
- Vamos às rãs ? – propôs.
- E a sesta ? – perguntou o João, afogueado, com grossas gotas de suor a escorrerem-lhe pelo rosto trigueiro.
- Tem tempo!
Descalçaram as botas e as meias listradas e foram, cautelosamente, pisar as margens fofas, avivadas de verdura, do charco adormecido. Uma frescura perfumada de loendro, colou-se-lhes às pernas espalhando-se depois por todo o corpo suado. Pusera-se logo à cata das rãs. Contornaram o pego, silenciosos, na ponta dos pés nus e aproximaram-se da extremidade do córrego tecido de juncos e mentastros onde apontavam, verdoengas e achatadas, como que adormecidas, as cabeças das rãs. Era preciso muita manha, que os estafermos pareciam ter olhos e ouvidos abertos por todo o corpo – mal uma pessoa dava um passo e ia mergulhar a mão na poça, aí voava uma para logo desaparecer, adiante, na fundura do charco. À superfície, a água ficava por momentos a abrir pequenos círculos que eram outros tantos sorrisos silenciosos e trocistas naquela face lisa. Sempre dava uma destas raivas !

Apenas pressentiam, de facto, a lenta aproximação, como se respirassem na aragem da tarde o cheiro excitante do perigo, começavam elas a mover-se e a altear as cabeças onde os olhos apontavam estoirados e fixos.

E ainda mal os rapazes, curvados pelos rins, a deslizarem sem ruído, estendiam o braço, já elas, avisadas pelo demo ou pelas bruxas, formavam o salto, umas atrás das outras, das margens para o lago: Chape ! Chape ! Pareciam carneiros, de inchadas. Mas levezinhas e ágeis, que ninguém diria, subiam ao ar, espalmadas, de pernas abertas, como se lhes tivesse soltado uma mola sob a barriga.
Estupores ! – exclamou Manuel que se pôs a arremessar para a água, raivoso, quantas pedras encontrou debaixo dos pés.
- É deixá-las. Vou-me mas é à sesta – disse o outro.
O corpo, entorpecido de calor, exigia-lhe descanso. Mas Manuel, magro e nervoso, com um focinho inquieto de bicho-furão, contrapôs logo, já desinteressado da caçada:
- Qual sesta ! Tomamos primeiro banho – dormimos depois. Que dizes ?
Já taciturno no modo e tardo na fala, não sentia João correr-lhe o sangue nas veias com o ímpeto imprudente de Manuel. E lembrou:
- Dizem que é perigoso.
- Histórias da carochinha para contar à lareira. Anda embora !
Desapertaram os cintos, tiraram as roupas e entraram nas águas escuras do pego.
Sentiram logo o chão de lodo aluir, silenciosamente, sob os pés que procuravam em vão a firmeza de um apoio. Ao mesmo tempo, toda aquela aparente tranquilidade fendia e estilhaçava: em voos precipitados, aflorando à superfície quebrada, insectos esquisitos, de longas pernas, vinham embater-lhes no corpo; um rato de água emergiu a cabeçorra escura e viva para logo mergulhar assustado. Passou depois, ziguezagueando, o vulto delgado, de uma cobra. Borbulhas de ar vinham a espaços do fundo, rebentavam ao de cima, formadas por lábios misteriosos, de afogados talvez, presos nas profundezas do lodo.
João parou, indeciso, com a água pelo joelho, a pele arrepiada e os sentidos alertados. O pego metia-lhe medo.
Manuel, porém, era feito de outra massa, levedava de rompante, com uma força selvagem, que o impelia cegamente para os espaços abertos sobre qualquer abismo que, imprudente, se recusava depois a medir. Descobrira que tinha asas e queria experimentar-lhes o poder, fosse qual fosse a largueza do horizonte que pretendia conquistar.
De longe, palpou a tibieza do amigo e lançou-lhe a pedrada do riso escarninho:
- Tens medo de molhar o cu, João ?
E, sem esperar resposta, voltou-lhe as costas e fez-se ao largo.
Mas o Pego da Matinha não gosta que lhe quebrem a paz: tem os seus segredos e guarda-os bem guardados nas profundezas soturnas...

A quem se afoita a sondar-lhe os mistérios abre-lhe os braços traiçoeiros, enleia-o suavemente até o puxar de vez fechando-o nas grades naturais de juncos e folhas apodrecidas que lhe forram as paredes.
Quando o Manuel, tarde demais, sentiu que o pego o tinha prisioneiro, gritou pelo João. Foi um grito estarrecido, a vara de surpresa a tranquilidade da tarde.
Pregado às margens do charco, o sangue coalhado nas veias, João era uma estátua de pedra. Quis gritar-lhe que sim, que esperasse, ia acudir-lhe de um salto – mas a garganta cerrou-se-lhe, o medo tolheu-o e, de vontade quebrada, ficou-se a ver o companheiro esbracejar, rouquejando não entendia que angustiado apelo. Por fim apenas ficou de fora um braço que se agitava, que continuava a chamar, que se imobilizou de súbito para acabar por desaparecer também.
Muito tempo depois de tudo consumado, ainda ele ali estava de pé, imóvel, e como que alheado – nuzinho em pelo e todo transido apesar do bafo quente da tarde.
O caminho de regresso, depois, pareceu-lhe longo e estirado, traçado sobre o gume de pedras ou línguas de fogo. E sempre aquele braço fora do lençol escuro das águas, em frente dos olhos, a pedir-lhe socorro, a acenar. Afigurava-se-lhe que, houvesse ele vencido o medo, houvesse ele acorrido como lhe imploravam e o pego não teria levado a melhor. Comprimia os punhos cerrados nos bolsos dos calções, fincava as unhas raivosamente nas palmas das mãos:



« Se não tivesse tido medo... Se não tivesse tido medo...» repetia-lhe em torvelinho o pensamento.
Quando entrou em casa, a mãe não lhe estranhou o silêncio nem a cara fechada. Viu-o vaguear do quarto para a cozinha e da cozinha para o pátio, cozido com a própria sombra – mas não fez caso. De súbito, porém, ei-lo que dispara direito à loja que servia de arrecadação. Saiu de lá com o baraço de corda que usavam para atar a cabra ao tronco da oliveira, atirado ao ombro e apontou outra vez à estrada. A mãe ainda veio à soleira da porta, mais surpreendida do que zangada:
- Ó João !
Mas já o filho ia longe, o velhaco, sapateando o asfalto numa pressa desenfreada.

Se lhe tivessem crescido asas nos ombros, não voaria com tanta rapidez até pousar sem alento, alagado em suor, nas bordas traiçoeiras do charco. O que contava é que estava de regresso, não podia faltar à voz que continuava a chamar por ele, insistentemente – podia lá ! Vencera o receio, deitara-lhe as unhas ao corpo sinuoso, de cobra, e que o enlaçara todo ainda há pouco, a ponto de lhe atar os movimentos. Mas aí estava de volta, aí estava para acudir ao Manuel.

E, sem mesmo descalçar as botas, todo vestido ainda, entrou afoito, de corpo inteiro, na fundura do charco. Tinha ligado ao pulso, com um nó firme, a extremidade da corda. Na outra ponta atara o peso de uma pedra.
- Eh ! Manuel ! – chamou.
« Manueeeel... » - respondeu-lhe o eco, a fazer ricochete, a saltar como um seixo arremessado sobre a superfície quieta das águas.
Assustado, um pássaro de plumagem escura saiu atarantadamente de um novelo de moitas, ganhou forças nas asas e esvoaçou sobre o pego como uma sombra de mau agouro.
- Eh ! Manuel ! – tornou ele a chamar, mais alto, já com a água para cima da cintura.
Calculou a distância a que o braço continuava a chamar fora daquela mortalha de águas paradas e arremessou a corda pelo ar, com força.

Do alto do caminho que descia estreitando em funil apertado entre a mata de eucaliptos, um homem de regresso a casa, terminada a faina do dia, deparou, intrigado, com as estranhas andanças. Tinha já pelos brancos nas barbas, que lhe testemunhavam largos anos de duras experiências, agarrado como um boi pacienta à canga pesada da terra. Sabia coisas – umas de ver com os próprios olhos desencantados que a vida lhe abrira, outras de ouvir contar aos mais velhos do que ele. Por isso não ignorava que o Pego da Matinha era uma cama de limos onde quem quer que nela se deitasse dificilmente de lá sairia. Pôs as mãos em concha e lançou o aviso:
- Eh ! Volta para trás, moço !
De nada serviu. João tinha os ouvidos e os olhos fechados para todos os sinais que lhe viessem do mundo. Via apenas à sua frente, obsessionantemente, o aceno angustioso a clamar auxílio. E foi avançando sempre, estendendo a corda, chegando-lhe o tardio socorro.
O homem deitou então a correr pelo carreiro abaixo. As pedras soltas sob as cardas das botas rolavam-lhe à frente, embaraçavam-lhe o passo, faziam-no tropeçar agora e logo. Se ainda chegasse a tempo ! Se pudesse ainda deitar o garfo das unhas àquele doido varrido ! Mas já um brado de angústia rasgava os ares, ferindo-lhe os sentidos:
- Manuel !
Correu mais depressa, caiu de joelhos, levantou-se e venceu afinal os últimos metros que o separavam do córrego.
Lá em baixo, porém, apanhou-o logo um grande e gélido silêncio. Tão grande tranquilidade era de estarrecer: - nem voo de asa ou sussurro de folha. Tudo quieto e suspenso como se o espanto ou o medo houvessem tolhido, ali, e nessa hora extrema, a própria Natureza.

***********************

Sereno, o Pego da Matinha espelhava o céu já tinto do sangue de um sol moribundo. Face lisa e amável de Judas iscariote.

E de súbito, das poças verdes, entretecidas de juncos e mentastros, rompeu um coro profundo e gutural : eram as rãs , soturnas, a entoar livremente o seu cante... parecendo soar:

Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a razão mesmo vencida,
não deixa de ser razão.


Que importa perder a vida
ainda que em tenra idade,
quando a amizade é sentida
e mais forte que a saudade!...





Falripas do Destino – Volume 1

Luis - 2001-05-23

O Messias



«Quando me lembro de Ti, no meu leito,
passo vigílias a meditar em Ti,
pois Tu foste um socorro para mim,
e, à sombra das Tuas asas, eu grito de alegria!»

Salmo 63:7,8



O Guru (chefe religioso indiano) que se encontrava a meditar na sua cova do Himalaia, abriu os olhos e descobriu, sentado na sua frente, um inesperado visitante: o abade de um célebre mosteiro.
«Que desejas?» - perguntou-lhe o Guru.
O abade contou-lhe então uma triste história: Noutros tempos, o seu mosteiro tinha sido famoso em todo o mundo ocidental; as suas celas estavam cheias de jovens noviços, e na sua igreja ressoava o harmonioso canto dos seus monges. Mas tinham chegado maus tempos: o povo já não acudia ao mosteiro em busca de alimento para o seu espírito; a avalancha de jovens candidatos havia cessado e a igreja achava-se silenciosa. Só restavam uns poucos de monges, que cumpriam triste e rotineiramente as suas obrigações. O que o abade queria saber era o seguinte:
«Teremos cometido algum pecado, para que o mosteiro se veja nesta situação?»

«Sim» - respondeu o Guru - «um pecado de ignorância».
«E que pecado foi esse?»
«Um de vós é O Messias disfarçado e vós não sabeis». E dito isto, o Guru fechou os olhos e voltou à sua meditação.

Durante a penosa viagem de regresso ao seu mosteiro, o abade sentia como o seu coração palpitava ao pensar que O Messias, o mesmíssimo Messias, tinha voltado à Terra e tinha ido parar precisamente ao seu mosteiro! Como não tinha ele sido capaz de o reconhecer? E quem poderia ser? Acaso o irmão cozinheiro? O irmão sacristão? O irmão administrador? Ou seria ele, o irmão prior? Não, ele não! Por desgraça, ele tinha demasiados defeitos...

Mas a verdade é que o Guru tinha falado de um Messias «disfarçado». Não seriam aqueles defeitos parte do seu disfarce?...
Bem visto, todos no mosteiro tinham defeitos... e um deles tinha que ser O Messias!
Quando chegou ao mosteiro, reuniu os monges e contou-lhes o que tinha averiguado. Os monges olhavam incrédulos uns para os outros: O Messias... aqui? Inacreditável! Claro que, se estava disfarçado... então, talvez... Poderia ser fulano...? Sicrano...? ou Beltrano...?
Uma coisa era certa: se O Messias estava ali disfarçado, não era provável que o pudessem reconhecer. De modo que começaram todos a tratar-se bem, com respeito e consideração.
«Nunca se sabe!» - pensava cada um para si, quando tratava com outro monge. «Talvez seja este...»


O resultado foi que o mosteiro recuperou o seu antigo ambiente de harmonia e alegria transbordante. Depressa voltaram a acudir dezenas de candidatos a pedir para serem admitidos na Ordem, e na igreja voltou a ouvir-se o canto jubiloso dos monges, radiantes do espírito de Amor.





Falripas de Meditação – Volume 2

Luis – 2002-11-16

sábado, 19 de setembro de 2009

Oficina de Violas de Arame no Programa «Sete Sóis» em Castro Verde


A matéria da crónica de hoje sobre os "Sete Sóis" versa sobre, o que foi para mim, o evento mais conseguido, mais completo, mais eficaz, do ponto de vista das consequências para o futuro, que foi o Encontro de violas de arame, ou a designação escolhida para o Programa dos "Sete Sóis", o de "Oficina de Violas de Arame".

A viola portuguesa chegou aos nossos dias sob várias designações, tais como: Braguesa, Ramaldeira, Amarantina, Toeira, de Arame, da Terra, Campaniça e até mesmo a Caipira de Minas Gerais.
A Oficina de Violas decorreu na Antiga Fábrica de Moagem Prazeres e Irmão, durante 3 dias, numa organização da Pedro Mestre-Viola Campaniça Produções Culturais integrado na Programação dos Sete Sóis.

Na pequena sala da "Fábrica", juntaram-se, nada mais,nada menos, que os maiores tocadores de viola "strictu sensu", seja de arame, braguesa, campaniça, da terra e caipira.

Naqueles pequenos metros quadrados da antiga fábrica de moagem em Castro Verde, tivemos juntos a tocar e a trocar ideias, virtuosidades e dicas para o futuro, tocadores como: Mestre Manuel Bento, Pedro Mestre, Amilcar Martins da Silva e Márcio Isidro pela viola campaniça alentejana, Vitor Sardinha pela viola de arame madeirense; Rafael Costa Carvalho pela viola da Terra dos Açores e José Barros pela viola Braguesa de Braga.

A metodologia escolhida para o evento, foi a de estender pelos 3 dias a exposição oral e execução prática nas suas violas ,dos tocadores das 4 violas em análise.
Assim, no primeiro dia assistimos à exposição oral dos dois tocadores que vieram das ilhas:
O Rafael Costa Carvalho dos Açores , e o Vitor Sardinha da Madeira.
O primeiro foi o Rafael, que nos falou sobre a Viola da Terra, contando a sua história, descrevendo a sua composição física, explicando a simbologia das suas
marcas e adereços, enquanto dedilhava exemplificando as técnicas de execução.Ficámos a saber que a Viola da Terra terá surgido nos Açores na segunda metade do século XV, levada pelos primeiros povoadores. A Viola da Terra que também é conhecida por Viola de Arame, ou Viola dos Dois Corações, era, e é, acompanhante natural de todos os cantares festivos, «balhos», derriços, desgarradas, desafios e despiques, e também dos devaneios sentimentais, líricos e amorosos.Por entre risos o Rafael esclareceu ainda que a viola da terra tem um espelho embutido entre a cabeça e a escala, que , explicou, deriva da vaidade dos tocadores açorianos, que quando se ausentavam de casa para tocar em festas e «balhos» pernoitando fora, utilizavam o espelho para se barbearem.
De palavra fácil, discurso escorreito, o Rafael foi explicando que os 2 corações que configuram a boca da viola da terra, simbolizam a saudade do coração que parte, que emigra e a saudade do coração que fica. Os dois corações estão ligados por um cordão umbilical a uma lágrima, a lágrima da saudade. A lágrima tem a forma de um ás de oiros que representa a busca da fortuna, afinal, o objectivo dos emigrantes .
Ao entrar na fase da execução, o Rafael salientou aquilo que faz a principal diferença na técnica utilizada pelos tocadores açorianos - a utilização do polegar - tocando alguns trechos com grande virtuosismo, arrancando os aplausos conhecedores da sala. (ver fazendo click no Link que se segue): http://www.youtube.com/watch?v=EUgZejTjiLU&feature=player_embedded

O segundo tocador da tarde do primeiro dia foi o madeirense Vitor Sardinha, que nos veio apresentar a Viola de Arame.
A Viola de Arame é a viola da Ilha da Madeira.Tal como o Rafael, o Vitor Sardinha é também professor de viola, no Conservatório de Música da Madeira, e por isso também habituado a falar em público, revelando-se também , um grande comunicador.

Vitor Sardinha esmiuçou também a sua viola, integrando-a no grupo mais lato da viola portuguesa.Instrumento com 9 cordas, com uma afinação do agudo para o grave na sequência ré-si.sol.ré.sol.
Salientou a importância da localização geográfica da Ilha da Madeira, com o seu porto Atlântico e a emigração insular a influenciar decisivamente o toque, os sons e o timbre da viola de arame madeirense.Mais perto de África e das Canárias do que do Continente, do qual esteve aliás longe, aquando da ocupação inglesa, e com uma forte ligação marítima com o Brasil, e Cabo Verde, a viola madeirense bebeu muito das influências tropicais e africanas.Ficámos ainda a saber que a viola de arame madeirense é o instrumento predilecto para acompanhar as charambas, as mouriscas, o bailinho e o baile da meia volta, este último do Porto Santo.E Vitor Sardinha passou à execução igualmente virtuosa e dialogante que a todos prendeu, arrancando os aplausos entusiasmados da sala. (ver fazendo click no Link que se segue):
http://www.youtube.com/watch?v=p_NB4wlygCA&feature=player_embedded


No final, do dia, os presentes foram convidados a empunhar as suas violas, e numa roda de tocadores, onde além dos quatro conferencistas figuravam mestres como Manuel Bento, Amilcar Martins da Silva, Marcio Isidro e outros.
Foi um momento alto da tarde. (ver fazendo click ni Link que se segue):
http://www.youtube.com/watch?v=ZYqmG8n1AjU&feature=player_embedded
Nota: este registo, que se refere ao 1º Dia da «Oficina de Violas de Arame» integrado no evento «Sete Sóis, Sete Luas» que decorreu recentemente em Castro Verde, foi amavelmente cedido pelo Blog http://casa-das-primas.blogspot.com/
onde poderão ver uma «reportagem» muito mais detalhada deste brilhante evento que animou nestes dias esta localidade.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Asas nos pés...


Quando entrou na aula, os pequenos, de pé, junto às carteiras envernizadas, deram os bons dias, em coro, mas sem o ar festivo de outros tempos.
- Podem sentar-se.
Houve um cicio apenas. Aprumadas nos bancos, as crianças ficaram hirtas, atentas, de olhos postos no estrado alto.
Entrava, pelas janelas, o perfume doce dos campos. Sentia-se, ao longe, a sinfonia metálica de um engenho e, perto, no beiral da casa, chilreavam andorinhas, num cortejo frenético e azul.
O professor encarou os alunos.
Na primeira fila, lá estava o Luis, o mais turbulento da classe.
Ia dar a última aula.
Recebera, dias antes, como sentença de morte, a comunicação. Uma comunicação breve, delicada, clara, mas irrevogável. Chegara ao cabo duma longa carreira. Ele tinha de deixar o seu mundo, um mundo de meio século – uma vida inteira !
- Vamos começar !
Comovido, quis desvirtuar a própria comoção. E, engrossando a voz num artificialismo cómico, mentiu, julgando que o acreditariam.
- Sim, porque hoje é um dia como qualquer outro. Ouviram ? Ouviram bem ? E quem não souber a lição... Ah, quem não souber a lição...
Os pequenos continuaram a olhá-lo como figuras de pedra. Mas, em alguns olhos, apareciam lágrimas.
- Vamos à leitura. Página 20.
Desceu porém do estrado, encaminhando-se para uma das janelas abertas.
Lá fora, junto ao caminho, o pequeno carreiro sinuoso que conduzia à escola. O mesmo, como há cinquenta anos atrás, quando ele, vindo de longe, de muito longe, chegara para ocupar o seu lugar de professor.
O sol batia-lhe agora nos cabelos prateados, que desciam quase até à nuca.
Como os anos tinham passado depressa !
Dir-se-ia que o tempo voara impulsionado pelo sortilégio de velhos alquimistas. Fora preciso aquela ordem para lhe lembrar os seus setenta anos.
Setenta anos ! Cuidava-se ainda com vinte.
Voltou-se.
Na sala, o mesmo silêncio – silêncio de morte, silêncio do fim !
- Porque me fitam dessa maneira ? Mas, eu já disse : hoje é um dia como outro qualquer. Porque não fazem barulho ? Porque se não magoam ? Porquê ? Porquê ?
E repisou, erguendo a voz insegura:
- Hoje é um dia como outro qualquer !
Mas, de súbito, virando as costas para a classe, rogou, espalmando, suplicante, a mão direita:
- Saiam. Saiam todos. Deixem-me só. E nem uma palavra. Não me digam nada. Depressa ! Depressa !
O silêncio tornou-se maior, depois, os pequenos levantaram-se e, um a um, foram saindo, de olhos no chão, em bicos de pés. Passaram, daí a pouco, debaixo das janelas, como revoada de pombas a que tivessem cortado as asas. Os pezitos raspavam na terra solta, e nuvens de pó envolviam os babeiros brancos.
Então, o velho professor sentiu chorar atrás de si. Voltou-se, com pânico. O Luis, que ficara no lugar, soluçava baixinho, apoiando a cabeça ao braço esquerdo.
- Luis ! Luis ! Meu filho ! Pois tu...
Foi buscá-lo ao lugar. Apertou-o muito ao peito, beijou-o na cabeça, na testa, na face ( como eu ainda sinto hoje esse aperto e aqueles beijos escaldantes !...).
- Não chores, Luis. Mas, que tolice ! Estás um homenzinho ! Vai chegar um professor novo. Eu já estava velho, meu filho. Muito velho Luis !... ( parece que ainda foi ontem que o ouvi dizer estas palavras !).
O pequeno recobrou o choro.
- Então, então ! Vá, sossega... Olha que eu zango-me ! Luis !...
Depois, com os olhos vidrados de lágrimas, murmurou:
- Senhor ! Senhor ! Levai-me agora !

*************************
O tempo correu, correu depressa.
E, quando a noite descia, o velho rondava a escola, como um namorado intranquilo.
Tacteava as paredes, numa volúpia inexplicável, sentava-se nos degraus, pisava o recreio, misturando, com as suas, as pegadas das crianças.
Adoeceu e esteve à morte.
E, uma noite, ergueu-se de manso, abriu a porta de sua casa e caminhou em frente.
O luar caía como uma benção, toucando os montes e as árvores.
Não ficava longe a escola, que, sob as estrelas, parecia ainda maior projectada no silêncio.
Não havia vento nas ramagens, nem rumores vivos a toda a volta.
Estacou.
- A minha escola ! A minha escola ! Foi dentro dela que a minha vida se gastou. Dias, meses, anos, longos anos de canseiras, de ansiedades de desgostos, e de alegrias.
Gritou:
- A escola é minha !
Mas, as próprias palavras o assustaram.
- Parece-me que gritei ! Se me ouvissem ? Talvez me cuidassem de doido.
E, baixando mais a voz:
- E eu não estou doido ! Ou estarei ? Quem sabe ?!... Quem poderá sabê-lo ?...
O luar espalhava-se mais e mais, adoçando as sombras. As arestas do edifício perdiam a agressividade, de tão iluminadas.
E o silêncio da noite morta quase tornava sonoro o mutismo das coisas inanimadas. As pedras, as árvores, a terra e as flores, iam comunicar entre si. Um fio as separava agora. Um fio que ia romper-se, dum momento para o outro.
- A escola é minha ! Tenho direitos sobre ela ! Sim, direitos ! Ninguém poderá afastar-me. Ninguém ! Estas pedras são a minha carne. Ouves ? Tu ouves ? Durante meio século, eu tive-te nos braços... Não é assim de repente que tudo se poderá acabar. Eles cuidam que sim. Eles não entendem isto. Pensavam que uma lei qualquer seria capaz de terminar com tudo, separar-me, destas pedras íntimas e queridas... A lei ! Acima da lei, está a minha ternura !
Alucinadamente, abriu mais os olhos e estendeu para a frente os braços trémulos. E começou a caminhar...
- «Luis, porque não estudaste a lição ? Estiveste doente, Manuel ? Vai ao mapa, Joaquim. Quem te fez mal, João ? Deu a hora, podem sair !...» Ah, mas eles não fizeram barulho. Porquê ? Têm asas nos pés... De que se haviam de lembrar: asas nos pés ! Assim, não há fruta que vingue. Voam às árvores, transpõem muros, vedações...
« Não chores, Luis ! Estás um homenzinho !...»


E pela manhã, quando os pequenos chegaram à escola, foram encontrar, caído, na escada de pedra, o velho professor.
Tocaram-lhe a medo. Estava frio. Mas, nos seus olhos, muito abertos e parados, havia duas gotas de luar, refulgindo ao sol nascente...


Falripas da Vida Viva

Luis – 2001-05-04

As Sevilhanas da Alma Alentejana no Lar São Tiago em Almada


A «Alma Alentejana» é uma Associação para o Desenvolvimento, Cooperação e Solidariedade Social, que nasceu a 13 de Abril de 1996, no seio da vasta família Alentejana, residente na Margem Sul (Almada).
Mais detalhes poderão ser vistos no Link que se segue do Site desta Associação:


ou ainda no site de apoio de autoria do Prof. José Rabaça, o Vice-Presidente desta Associação na Área Cultural: http://www.joraga.net/eAlentejo/

No sentido de animar as suas várias valências entretanto criadas no apoio Social, a Alma Alentejana criou na sua Área Cultural, entre outros, um grupo de dança: «As Sevilhanas da Alma Alentejana».

Este Grupo, para além do apoio à Alma Alentejana, tem feito muitas animações, em especial nos Lares de apoio à 3ª Idade.

Destacamos a de hoje em Almada, onde os residentes do Lar São Tiago poderam desfrutar de uma tarde dançante bem animada, na qual alguns acabaram por dar o seu contributo na parte final: e que bem que dançaram os nossos «velhotes»...

Marvão - Percurso do Contrabando do Café


Desde de dia 13 de Setembro é possível caminhar por entre a Serra de São Mamede e conhecer o Percurso do Contrabando Romântico do Café, no concelho de Marvão. Uma iniciativa da Câmara Municipal que pretende homenagear os contrabandistas da raia.


Galegos, Pitaranha e La Fontañera são algumas das localidades por onde o Percurso do Contrabando Romântico do Café, no concelho de Marvão, vai passar. Caminhar entre o terreno acidentado da Serra de São Mamede até cada uma destas aldeias para viver o contrabando que sustentava muitas famílias é a proposta deste passeio inaugurado a 13 de Setembro.


«Marvão foi pioneiro na torrefacção de café. Do outro lado da fronteira não havia. O café era então um produto muito contrabandeado para Espanha. Mas levava-se e trazia-se tudo», conta o responsável pela organização do Percurso, António Garreio.Além de uma vasta paisagem natural, o percurso irá ainda incluir a recriação de momentos contrabandistas «com a simulação de uma quadrilha de contrabandistas e de guardas-fiscais», acrescenta o mesmo responsável.


O percurso é circular e tem uma extensão de 7,5 quilómetros. O primeiro percruso fez-se no âmbito da I Feira do Café que decorreu em Marvão, de 11 a 13 de Setembro. O Percurso da responsabilidade da Câmara Municipal de Marvão pretende ser uma homenagem aos contrabandistas das localidades fronteiriças do concelho.


in «Café Portugal» terça-feira, 15 de Setembro de 2009